A desaprovação ou aprovação de um governo raramente ocorre em um vácuo. Embora fatores ideológicos, partidários e culturais influenciem a opinião pública, os dados mostram que a economia continua sendo o eixo central que ajuda a estruturar a percepção dos brasileiros.
Uma análise dos dados a partir da nova rodada da pesquisa Genial Quaest, publicada hoje (20/08), revela com clareza esse padrão: há uma forte correlação entre a avaliação do governo Lula e a percepção sobre o desempenho na economia.
Pelos dados da Quaest, entre maio e agosto, a aprovação do governo saiu de 40% para 46%, uma variação acima das margens de erro. No mesmo período, a avaliação positiva passou de 26% para 31%. Aparentemente, há uma tendência de melhora da avaliação do governo.
Como a percepção da economia ajuda a explicar esse dados?
Embora a série não seja muito longa, são apenas 13 pontos, isto é, 13 pesquisas feitas pela Quaest entre 2023 e 2025, os resultados dos testes de correlação reforçam que há uma forte associação em curso.
Ela ocorre entre os percentuais de desaprovação e a percepção dos brasileiros de piora da economia. Em uma escala que varia de -1 (forte associação negativa) até +1 (forte associação positiva), a correlação entre essas duas variáveis chegou a +0,95.
Na prática, é como se pudéssemos estimar a desaprovação do governo apenas observando os dados da percepção dos brasileiros sobre a economia. A pesquisa Quaest mostra que tem que havido melhora na percepção da economia de 18% para 22%, no mesmo período em que a avaliação do governo apresentou recuperação.
A avaliação positiva do governo, como era de esperar, já que é uma segunda forma de analisar os dados, mostra uma forte correlação negativa de -0,93.
Os dados sugerem, portanto, que a percepção da economia é um gatilho poderoso para o desgaste político. À medida que avaliam negativamente a economia, os brasileiros tendem também a desaprovar ou avaliar negativamente o governo.
Avaliação e percepção do aumento do preço dos alimentos
Os resultados dos testes reforçam uma lição clássica da ciência política: governos são julgados, em grande medida, pela capacidade de garantir bem-estar material.
Em um país como o Brasil, onde o preço dos alimentos tem impacto direto e imediato na vida cotidiana, a inflação dos alimentos funciona também como um termômetro da gestão pública. Entre maio e agosto, a percepção de piora dos preços caiu de 79% para 60%, mesmo período em que se observou uma melhora na avaliação do governo.
A associação entre desaprovação e piora no preço dos alimentos é de +0,79, indicando que, quanto maior a percepção de que houve piora nos preços, maior também é a desaprovação do governo Lula, e vice-versa.
Como a desaprovação caminha junto com a percepção dos preços, a variação da avaliação positiva segue a mesma direção, mas em sentido inverso. Quanto maior a percepção de que os preços dos alimentos subiram, menor a avaliação positiva. A associação entre essas duas variáveis é de -0,74.
Testes de correlação
Desaprovação x Preço dos Alimentos |
+0,79 |
Avaliação Positiva x Preço dos Alimentos |
-0,74 |
Apesar dos testes de correlação mostrarem associação forte entre avaliação do governo e economia, é importante atentar para algumas limitações desse tipo de análise.
A primeira delas é que os percentuais identificados pela Quaest podem variar para mais ou para menos dentro das margens de erro, o que afeta os resultados da correlação. Logo, é importante um pouco de cautela na leitura muito direta dos resultados dos testes.
Contudo, ainda que esse exista essa limitação, a tendência geral das 13 pesquisas mostra que a avaliação de governo, percepção da economia e preços dos alimentos apresentam um padrão de associação.
A segunda limitação refere-se ao fato de estarmos analisamos apenas uma variável (economia) para examinar a avaliação do governo. Muitos outros fatores podem estar contribuindo também para os percentuais de aprovação ou desaprovação do governo, mas não foram observados nos dados divulgados pela Quaest.
Apesar disso, uma conclusão parece bastante razoável. Ainda que outros fatores (não avaliados) estejam influenciando a avaliação do governo, a economia é, sem dúvida, um dos principais deles.
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Fábio Vasconcellos
Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.