Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia | Representação e Legitimidade Democrática | ReDem

Candidaturas trans triplicaram em dez anos, mas só 5% conseguem se eleger

Escrito por: Marek Dusilek e Maria Cecília Eduardo

A presença de pessoas trans nas urnas deixou de ser invisível e cresceu exponencialmente na última década. Mas será que esse ‘boom’ de candidaturas está se traduzindo em poder real e carreiras longevas? Uma pesquisa inédita da UFPR, cruzando dados da sociedade civil e do TSE, revela um cenário agridoce: as portas da política se abriram, mas apenas 5% conseguem cruzá-las efetivamente. Descubra o perfil dessas candidaturas e os gargalos estruturais que ainda impedem a plena representatividade.

O Desafio Investigado: O artigo aborda o “paradoxo da visibilidade sem continuidade”. Apesar de símbolos de sucesso como Erika Hilton e Duda Salabert, a pesquisa questiona se o aumento numérico de candidaturas trans reflete uma integração democrática real ou se esbarra em barreiras estruturais. O estudo preenche uma lacuna deixada pela ausência de estatísticas oficiais (o Censo não mede esse contingente) para entender se esse novo protagonismo se traduz em mandatos efetivos

A Proposta Central: Para superar a falta de dados oficiais, os pesquisadores construíram um banco de dados inédito cruzando informações da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transsexuais) com registros do TSE. O objetivo foi mapear não apenas o volume, mas o perfil sociodemográfico e o sucesso eleitoral de 1.242 candidaturas entre 2014 e 2024.

Evidências e Argumentos: A análise dos dados revela um crescimento consistente: de 13 candidaturas federais em 2014 para 81 em 2022; e de 131 municipais em 2016 para 734 em 2024.

No entanto, os números expõem gargalos severos:

  • Baixa Efetividade: Apenas 5,31% das candidaturas resultam em eleição. A grande maioria (60,47%) termina em suplência, sem continuidade de carreira.
  • Perfil Racial e Social: As candidatas são majoritariamente negras (62,15%, muito acima da média de 23,3% dos políticos brasileiros) e de baixa renda, o que amplia as dificuldades de financiamento.
  • Foco na Vereança: 87% das tentativas são para cargos de vereador, com pouca penetração em disputas majoritárias ou para o Senado, limitadas também pela baixa expectativa de vida da população trans (35 anos).
  • Concentração Partidária: Partidos de esquerda (PT, PSOL, PSB, PDT) concentram a maioria dos lançamentos, indicando baixa diversidade ideológica no acolhimento dessas lideranças.

 

Implicações e Contribuições: O estudo conclui que estamos avançando na “porta de entrada”, mas falhando na permanência. Para transformar essa presença em representação duradoura, os autores sugerem:

  1. Políticas de Permanência: Mentorias, financiamento compatível e distribuição equitativa de recursos partidários.
  2. Dados Oficiais: Padronização dos campos de identidade de gênero no TSE e inclusão em pesquisas como a PNAD. A pesquisa alerta que, sem esses ajustes, as trajetórias políticas trans continuarão sendo exceções e não parte da normalidade democrática.

 

 

*Foto: Kayla Bartkowski/Getty Images via AFP 

Siga @redem.inct no Instagram e @redem_inct no X para saber mais sobre os estudos realizados por nossos pesquisadores!

Autores

Marek Dusilek Lima – Cientista social, bacharel em Sociologia pela UFPR e pesquisador no INCT ReDem.
Maria Cecília Eduardo – Doutora em Ciência Política na UFPR. Pesquisadora de pós-doutorado no INCT ReDem. Interessada nos seguintes temas: participação política de mulheres, financiamento de campanha e gênero e teoria política feminista.