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Análise: conjuntura e pragmatismo político explicam aprovação da isenção do Imposto de Renda a mais pobres

Escrito por: Fábio Vasconcellos

Um governo minoritário, enfrentando uma oposição feroz e uma Câmara onde os deputados são, em média, 62 vezes mais ricos que a população, consegue 100% dos votos para taxar grandes fortunas. O que explica esse fenômeno? Uma nova análise sugere que não foi convicção ideológica, nem uma súbita força do governo, mas sim um cálculo frio de sobrevivência política gerado por um erro estratégico anterior dos próprios parlamentares.

O Desafio Investigado: O artigo investiga uma anomalia política no governo Lula 3: como um Executivo minoritário e sob forte oposição do PL e do Centrão conseguiu aprovar, por unanimidade, uma pauta histórica da esquerda (isenção de IR para pobres e taxação de super-ricos)? O enigma se aprofunda ao considerar o perfil dos deputados: majoritariamente de direita e com patrimônio médio de R$ 3 milhões, eles votaram contra seus próprios interesses econômicos e ideológicos.

A Proposta Central: O autor argumenta que a aprovação não reflete uma “virada de jogo” do governo na governabilidade, mas sim o resultado de pragmatismo político impulsionado por uma conjuntura desfavorável ao Legislativo. A tese é que a votação funcionou como uma “vacina” de imagem para a Câmara.

Evidências e Argumentos: A análise conecta a votação do IR diretamente ao fracasso da “PEC da Blindagem”, ocorrido semanas antes.

  • A Crise de Imagem: A tentativa da Câmara de aprovar uma PEC dificultando investigações contra parlamentares gerou revolta popular e manifestações. Quando o Senado enterrou a proposta, o ônus político recaiu sobre os deputados.
  • A Reação: Para limpar a imagem de “inimiga do povo” em um ano pré-eleitoral (visando 2026), a Câmara precisava aprovar uma medida de forte apelo popular.
  • O Cálculo da Oposição: A oposição bolsonarista e o Centrão entenderam que o governo Lula ganharia a narrativa de qualquer forma (seja aprovando a medida, seja acusando a oposição de barrá-la). O voto favorável foi, portanto, uma estratégia de redução de danos.

 

Implicações e Contribuições: A análise conclui que é equivocado interpretar essa vitória como uma consolidação da base governista. O cenário demonstra a volatilidade do presidencialismo de coalizão atual: Lula continua minoritário e dependente de alinhamentos conjunturais, enquanto o Centrão segue calculando seu apoio voto a voto, guiado não por fidelidade, mas pela sobrevivência eleitoral.

 

Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

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Autor

Fábio Vasconcellos – Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.
 

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