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Quem é de esquerda, quem é de direita? Depende de quem responde

Escrito por: Filipe Vicentini Faeti, Ednaldo Ribeiro e Vinícius Silva Alves

Você diria que o PT é de extrema-esquerda ou centro-esquerda? E o PL, é direita radical ou centrão? Se a resposta parece difícil, você não está sozinho. Um novo estudo comparativo revela que a identidade ideológica dos partidos brasileiros sofre de uma curiosa distorção: filiados, deputados e cientistas políticos enxergam as mesmas legendas de formas drasticamente diferentes. Descubra quais partidos sofrem dessa ‘ambiguidade’ e como isso confunde o eleitor na hora do voto.

O Desafio Investigado: Em um sistema fragmentado como o brasileiro, saber se um partido é de esquerda ou direita serve como um atalho cognitivo vital para o eleitor. No entanto, o artigo investiga um problema estrutural: a falta de consenso sobre essas classificações. A pesquisa questiona se a “autoimagem” de um militante corresponde à prática legislativa do partido ou à avaliação técnica da academia.

A Proposta Central: Para medir essa “congruência” (ou a falta dela), os autores utilizaram uma metodologia inovadora de triangulação de dados, cruzando três perspectivas distintas:

  1. A base: A visão dos filiados (Survey do CEPP/UFSCar).
  2. A elite: O autoposicionamento dos deputados federais (Brazilian Legislative Survey).
  3. A técnica: A classificação de especialistas (Levantamento Bolognesi, Ribeiro & Codato).

 

Evidências e Argumentos: Ao colocar essas três visões lado a lado, os dados revelam padrões intrigantes:

  • Congruência: Partidos como PSOL e PDT mostram alta coerência — filiados, deputados e especialistas concordam sobre sua posição no espectro.
  • Dissonância: Siglas tradicionais (MDB, PSDB, PSD) apresentam alta ambiguidade.
  • O Paradoxo da Percepção: O estudo destaca casos curiosos como o do PT (onde os filiados enxergam o partido mais à esquerda do que a prática parlamentar sugere) e o do PL (onde os filiados acreditam estar mais ao centro do que a realidade da bancada ou a análise de experts indica).

 

Implicações e Contribuições:A conclusão é que a ideologia é relacional. A divergência de percepção não é apenas um detalhe acadêmico; ela explica a dificuldade do eleitor em entender “quem defende o quê” e cria desafios de governabilidade, gerando incoerências em alianças políticas. O estudo reforça que, para entender a política brasileira, é preciso olhar para além do estatuto do partido e compreender como ele é percebido por diferentes atores.

 

 

*Foto: Depositphotos – Fonte: Agência Câmara de Notícias

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Autores

Filipe Vicentini Faeti – Doutor pelo programa de Pós-Graduação em Ciência Política – PPGPol/UFSCar com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Foi pesquisador visitante no Instituto de Iberoamérica e integra o Party Politics Data Base (PPDB).
Ednaldo Ribeiro – Doutor em Sociologia pela UFPR. Professor de Ciência Política na UEM e na UFPR. Bolsista produtividade do CNPq na área de comportamento político. Interessado nos temas atitudes democráticas e ativismo político.
Vinícius Silva Alves – Professor no Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP). Foi pesquisador visitante na Universidade da California, San Diego e Davis.