No debate convencional da política brasileira, o caminho para o Palácio do Planalto em cenários polarizados parece seguir uma fórmula aritmética simples: a vitória pertence a quem “conquista o centro”.
A lógica sugere que, ao suavizar o discurso e convergir para posições moderadas, os candidatos ampliam as chances de atrair o eleitor médio e a maioria dos votos.
No entanto, esse cenário é menos óbvio nas disputas contemporâneas, nas quais os eleitores são frequentemente bombardeados por uma série de fontes de informação. Esse contexto reforça o que comumente chamamos de um grupo de eleitores que vive sob “pressões cruzadas”.
Essa característica sugere que o comportamento do eleitor que muitas vezes é chamado de moderado, de centro ou independente não é linear. Ele não busca necessariamente o meio-termo entre duas plataformas partidárias.
Essa hipótese indica que candidatos que caminaha para a moderação ignoram, muitas vezes, as angústias reais desses eleitores. Essa é uma das principais conclusões da pesquisa conduzida por David E. Broockman e Joshua L. Kalla (2026), “Should moving to the middle win candidates votes?”, ainda em preprint. O estudo sugere que mover-se para o centro implica, muitas vezes, em perda de votos.
Com base no contexto polarizado americano, os pesquisadores realizaram um experimento com seis mil eleitores e concluiram que candidatos que se movem em direção à posição do partido oposto geram retornos eleitorais baixos e, em muitos casos, negativos.
Segundo o estudo, o erro fundamental dos estrategistas de campanha é, muitas vezes, confundir o “centro da elite” — o ponto médio entre as plataformas dos partidos — com o “eleitor mediano”. Broockman e Kalla argumentam que os eleitores não são moderados em suas convicções; eles são multidimensionais.
Um indivíduo pode sustentar visões que a elite rotula como “extremas” em uma pauta, mas que são, na verdade, a posição majoritária da população. Nesse caso, mover-se para o centro em temas nos quais o eleitor já concorda com a sua “radicalidade” resulta em uma perda líquida: você aliena sua base e o eleitor independente que compartilhava daquela visão, sem ganhar novos votos.
O cenário Brasil: o alinhamento dos independentes
Ao traduzirmos essa lógica para o Brasil, os dados revelam que o grupo de eleitores rotulados como “independentes” está longe de viver em um vácuo ideológico. Suas prioridades e diagnósticos mostram uma convergência na direção da base mais à direita, aproximando-os de dores sentidas por eleitores que hoje preferem Flávio Bolsonaro.
Com base nos dados da última rodada da pesquisa Quaest divulgada este mês, analisei os percentuais de lulistas, esquerda não lulista, independentes, direita não bolsonarista e bolsonaristas em seis questões. (Esses dados devem ser lidos com certa ponderação, em razão das margens de erro maiores).
No tema da corrupção versus problemas sociais, há um abismo de percepção. Apenas 10% dos lulistas veem a corrupção como prioridade, contra 24% dos independentes e 29% da direita. Os independentes (19%) estão levemente mais distantes do campo da esquerda (20% a 27%), que considera os problemas sociais um tema preocupante.
No gráfico, é possível observar que os independentes estão hoje muito mais próximos do campo gravitacional da base de eleitores de Flávio Bolsonaro.

Embora a maioria dos temas divida esquerda, direita e independentes, há um tema hoje transversal. A violência é o assunto em que esses grupos tendem à congruência como a maior preocupação.

Por fim, o terceiro gráfico ilustra de forma contundente que os independentes não são eleitores com percepções moderadas.
As perguntas “O país está na direção certa” e “Lula merece um novo mandato” posicionam eleitores de esquerda no quadrante superior direito, com ampla concordância nas duas questões.
No quadrante inferior à esquerdo estão aqueles que discordam fortemente dessas afirmações e lá estão, novamente, os independentes próximos do campo da direita.

Em resumo, o chamado “centro político” não quer uma média aritmética entre o PT e o PL; ele compartilha o diagnóstico de país da oposição. O eleitor independente não busca uma ponte, mas uma solução para angústias que ele percebe de forma muito semelhante à base conservadora.
Diante da multidimensionalidade, a campanha governista enfrenta dilemas. Caso busque “moderar”, por exemplo, em pautas econômicas para acalmar o mercado ou em pautas comportamentias para agradar os conservadores, Lula poderá ser visto como “leniente” nos demais temas, em especial segurança e corrupção.
Um eleitor pode, em teoria, apoiar o aumento do salário mínimo ou programas sociais de esquerda, mas votar na direita porque a insegurança pública ou a corrupção são suas preocupações mais latentes.
Para converter esse eleitor de “centro”, a estratégia com maior probabilidade de mobilização de votos, no atual cenário, não seria a moderação, mas a “radicalização estratégica” em pautas que o “centro” valoriza.
O eleitor independente está atravessado por dores específicas e penalizará quem abandonar posições “majoritárias” em nome de uma suposta moderação.
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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


