- Março, 2026
- Autoria: Roberta Picussa e Adriano Codato
- Nº 2
- Vol. 3
- Resumo:
Introdução: Quem são os candidatos outsiders que disputaram eleições presidenciais no Brasil? A literatura costuma opor insiders (políticos tradicionais) a outsiders, tratando como equivalentes candidaturas com perfis radicalmente distintos (militantes ideológicos, empresários, dissidentes carismáticos). Este estudo pergunta: (1) quais padrões de votação esses candidatos exibiram entre 2002 e 2022; e (2) quão heterogênea é a categoria “outsider”. Métodos: Aplicamos a tipologia de Carreras a 24 candidaturas presidenciais outsiders, combinando dados eleitorais oficiais e informação prosopográfica. A classificação distingue três tipos de outsiders – amadores, rebeldes e outsiders completos – segundo a presença/ausência de experiência política prévia (ocupação de cargos eletivos) e o tipo de partido pelo qual concorrem. Para o contexto brasileiro, definimos partidos “novos” como aqueles com ≤5 anos de fundação, “marginais” como >5 anos e bancada pequena (≤10 deputados), e “tradicionais” como >5 anos e bancada >10 deputados. Resultados: Identificamos 12 outsiders completos, 10 rebeldes e apenas 2 amadores. A votação agregada dos outsiders permaneceu abaixo de 4% em quatro das seis eleições; as exceções foram 2006 e 2018 (neste caso, com forte sensibilidade à inclusão/exclusão de Jair Bolsonaro). De forma mais geral, a série 2002-2022 revela três ciclos políticos diferentes e um padrão de “equilíbrio pontuado”, sem tendência de acumulação progressiva do voto anti-establishment. Discussão: Apesar de reconhecer a utilidade da tipologia de Carreras, baseada em variáveis institucionais (carreira/partido), propomos uma tipologia empírica alternativa, baseada em prosopografia, que agrupa os 24 casos em três perfis sociológicos: militantes ideológicos, dissidentes carismáticos e outsiders de direita com capital extrapolítico. Essa tipologia incorpora o tipo de capital mobilizado (social, político, econômico) e trajetórias efetivas, explicando por que candidatos formalmente idênticos apresentam desempenhos eleitorais muito distintos. Com isso, o estudo separa posição no sistema partidário de recursos efetivamente mobilizados, esclarecendo por que candidaturas institucionalmente semelhantes podem ter votações radicalmente distintas.
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*Imagem: Paulo Pinto/Agência Brasil – Fonte: Agência Senado


