Nas últimas semanas, ganhou força a hipótese de que a aprovação do governo e as intenções de voto em Lula não decolam em razão do forte endividamento das famílias brasileiras registrado nos últimos meses. Essa hipótese traduz o raciocínio do chamado “voto econômico”, segundo o qual, quando percebe perda da sua capacidade de compra ou renda, o eleitor tende a penalizar o governo.
No entanto, uma análise, ainda que com muitas restrições em razão do tipo de dado utilizado (veja nota abaixo), sugere que essa relação não parece ser tão direta. O primeiro teste que fiz foi verificar se o endividamento dos brasileiros apresentou alguma associação com o voto nos estados em Lula em 2022. Inversamente, será que Bolsonaro foi punido segundo as taxas de endividamento dos brasileiros?
Pelos resultados (agregados), a correlação foi negativa e significativa (-,45). Ou seja, e contraintuitivamente, quanto maior a inadimplência média, menor foi a votação em Lula. Exemplo: em estados com mais de 65% de votos em Lula, a taxa média de inadimplência foi de 37,4%, enquanto em estados com menos de 45% de votos para o petista, a inadimplência subiu para 42,6%.
Percentual de adultos inadimplentes nos estados x votação em Lula no 2 Turno de 2022

O cruzamento entre a evolução da inadimplência e a pesquisa sobre as preferências eleitorais mostra o quanto, mesmo quatro anos depois, é preciso cautela na hipótese de associação entre essas duas variáveis. Aparentemente, filtros sociopolíticos existentes desde 2022 parecem, no momento, modular os possíveis efeitos do endividamento sobre a rejeição a um quarto mandato de Lula.
Pelos dados, no início de 2022 e meados de 2026, houve um avanço e uma consolidação da taxa da população adulta endividada em escala nacional, segundo dados do Serasa. Em fevereiro de 2022, a taxa era de 40,45%, enquanto este ano, no mesmo período, chegou a 49,87%. Aumento de 9 pp.
Distribuição da proporção de adultos endividados por região entre 2022 e 2026
(mês de referência: fevereiro)

Ao observarmos esses dados por regiões, segundo os resultados da pergunta “Lula não merece um novo mandato”, o endividamento e a rejeição a Lula seguiram caminhos divergentes, segundo a média nas regiões.
O Sul do país, por exemplo, figura como a região com a menor aceleração média da parcela de indivíduos recém-endividados (alta de 7,8 pontos percentuais entre 2022 e 2026). Apesar disso, a região sustenta o patamar mais severo de rejeição a um novo mandato para Lula (67,2%), segundo dados do Ideia/Meio. Esse percentual empata com os índices do Norte e é muito próximo do Centro-Oeste (64,2%), que apresentou a mais alta expansão da taxa de adultos endividados (+10,3 p.p.). Vale lembrar que essas regiões também figuram, desde 2022, como aquelas menos lulistas.
Relação entre aumento da inadimplência dos brasileiros entre 2022 e 2026
e o percentual dos que são contra um novo mandato para Lula, segundo as regiões.

O Nordeste, por sua vez, experimentou um aumento relativo médio de inadimplentes no período em torno de 8,9 p.p. Essa variação se equipara e até supera estatisticamente o verificado no Sudeste (+8,4pp). Apesar da dificuldade dos adultos do Nordeste, a região registra isoladamente a base mais estável do governo, com a menor taxa de rejeição a uma nova eleição de Lula (apenas 33,6%).
Aparentemente, portanto, as preferências médias não teriam uma relação direta com a questão do endividamento, sugerindo que outras variáveis contribuem e talvez de maneira mais estável com a avaliação sobre um novo mandato de Lula.
Nesse sentido os efeitos parecem caminhar em outra direção. Por exemplo, nos estados que já tinham sido fortemente oposicionistas em 2022 (Sul e Centro-Oeste), qualquer piora modesta da taxa dos endividados parece, na verdade, reforçar a rejeição pré-existente a Lula. Em contrapartida, em redutos nos quais Lula registra índices históricos de aprovação (caso do Nordeste), o aumento do endividamento, aparentemente, não puxa a sua rejeição. Em resumo, o devedor continua sendo um fiador do governo.
Os limites da análise com dados agregados
Esta análise tem caráter exploratório, por apresentar limitações metodológicas de dados agregados, que podem levar ao erro da chamada “falácia ecológica”. Esse tipo de erro consiste em verificar comportamento gerais (Estados e ou Regiões) que podem esconder singularidades, ou seja, não sabemos se exatamente indivíduos/eleitores que entraram na faixa do endividamento em Pernambuco, São Paulo ou Goiás, por exemplo, correspondem de fato àqueles que rejeitam um quarto mandato de Lula, e vice-versa. Por se tratar de dados agregados, portanto, novas análises, a partir de microdados (eleitores e indivíduos), são necessárias para corroborar ou não a hipótese da relação endividamento e intenção de voto.
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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


