Em 86,4% dos palanques pesquisados no país, a intenção de voto no candidato a presidente supera a do candidato a governador do seu próprio partido ou campo político. O dado, extraído dos levantamentos Quaest realizados na semana passada, sintetiza um fenômeno do nosso federalismo eleitoral. Quase sempre, a corrida pelo Palácio do Planalto acontece em uma dinâmica paralela e descolada das disputas estaduais.
Das 22 disputas analisadas nas diversas regiões brasileiras, em 19 o presidenciável pontua à frente do aliado local — taxa que alcança 91,7% no campo da esquerda (Lula) e 80,0% no da direita (Flávio Bolsonaro).
É por isso que, mais uma vez, vamos assistir à combinação de votos que o eleitor faz entre um candidato a governador de um campo político e um candidato à Presidência de outro.
Nacionalização versus características locais
A distância dos percentuais de votos entre candidatos a governador e candidatos a presidente ocorre por alguns fatores. Com ampla cobertura da imprensa, pesquisas e eventos políticos de forte impacto, a eleição presidencial acaba se cristalizando com mais força na cabeça do eleitor.
Nessa dinâmica, a chave da polarização nacional — marcada por alta lembrança espontânea e clara divisão de blocos — acaba mobilizando intenções de voto muito antes do dia do pleito.
As disputas para os governos estaduais, por outro lado, obedecem a questões locais. Com menor cobertura da imprensa e mais dependentes do horário eleitoral, os candidatos têm mais dificuldade para mobilizar os eleitores.
Adicione a essas variáveis a força política de lideranças que constroem candidaturas competitivas em razão da avaliação das gestões em exercício ou de coalizões regionais com histórico de reconhecimento local. São esses candidatos, muitos deles sem ligação direta com Lula ou Flávio, que estão conseguindo liderar as pesquisas locais, limitando o espaço para candidaturas do PT ou do PL.
Quando analisamos a mediana das intenções de voto — métrica que captura o “estado típico” sem a distorção de redutos extremos —, a assimetria fica evidente. No campo da esquerda, Lula registra mediana de 31,5% nas unidades pesquisadas, enquanto os candidatos a governador aliados marcam 19,5%, uma diferença de 12 pontos percentuais.
Na direita, Flávio Bolsonaro atinge mediana de 36,0%, contra 28,0% dos governadores aliados, abrindo 8 pontos de vantagem.

A disparidades no campo da esquerda
Na esquerda, a disparidade reflete a dificuldade histórica do Partido dos Trabalhadores em converter o lulismo em candidaturas estaduais competitivas no Centro-Sul. Em estados como Goiás (+22 p.p. de saldo pró-Lula), Minas Gerais (+19 p.p.) e Espírito Santo (+19 p.p.), Lula preserva uma base consolidada de 27% a 35%, mas os nomes locais do PT oscilam em patamares residuais (entre 5% e 16%), diante de hegemonias estaduais consolidadas.

A única exceção pró-governador ocorre no Rio de Janeiro, onde Eduardo Paes (PSD, com 38%, incluído nesta análise pelo apoio explícito a Lula) supera o próprio presidente Lula (30%) por 8 pontos, beneficiando-se da máquina da capital e de um perfil com apelo ao eleitorado de centro.
As disparidades no campo da direira
Já no campo da direita, o fator determinante é a força da incumbência herdada de 2022. Onde a direita governa e tem mandatos bem avaliados, são os governadores que lideram o jogo: em São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos, mas considerado na análise) supera Flávio Bolsonaro por 10 pontos (44% a 34%), e em Santa Catarina, Jorginho Mello abre 4 pontos de frente (54% a 50%).

Nos demais estados, a dependência do ativo presidencial de Flávio, como principal herdeiro político do pai, volta a ditar o ritmo. Em Minas Gerais (+25 p.p. de saldo pró-Flávio), Mato Grosso (+23 p.p.) e Goiás (+18 p.p.), a candidatura estadual só ganha tração quando associada diretamente ao Planalto.
Sem transferência automática
A análise desse descolamento entre a eleição local e a nacional sugere que o alinhamento ideológico não opera como transferidor automático de votos para os estados. Em 2026, o eleitorado parece separar o voto na Presidência da escolha para o governo local, exigindo das campanhas estratégias sob medida para cada unidade da federação onde seus candidatos apresentam pouco fôlego.
Onde o presidenciável apresenta melhor desempenho, a candidatura local precisa se esforçar para nacionalizar a disputa, movimento que, até aqui, não surtiu o efeito esperado. Já onde o presidenciável tem menos força (São Paulo para Flávio e Rio de Janeiro para Lula), o palanque local atua como estrutura de mobilização dos eleitores, mas sem garantia de transferência de votos.
Siga @redem.inct no Instagram e @redem_inct no X para saber mais sobre os estudos realizados por nossos pesquisadores!
Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


