A marca de 20% de representação feminina nas casas legislativas em 2026 consolidou um avanço histórico no sistema político brasileiro, e repete um comportamento registrado também na Câmara dos Deputados.
Nesta eleição, a bancada das mulheres na Câmara saltou de 90 eleitas em 2022 (17,54% das vagas) para 109 em 2026 (21,25%), crescendo a um ritmo relativo de 21,11%.
Nas assembleias legislativas e na Câmara Distrital, as mulheres conquistaram 27 novas cadeiras, passando de 191 eleitas (18,04%) para 218 deputadas (20,59%).
A análise dos dados indica que o aumento no número de deputadas estaduais foi impulsionado, sobretudo, por partidos do campo conservador.
Polarização
Os partidos de extrema direita representam agora a maior bancada feminina estadual, alcançando 71 cadeiras (32,57% de todas as deputadas eleitas). O Partido Liberal (PL) foi o principal fator dessa dinâmica, mais que dobrando o número de deputadas, de 20 para 43 parlamentares.
Esse movimento aprofundou a polarização nas assembleias. A esquerda e a extrema esquerda também avançaram, saltando de 50 para 64 mandatos femininos (29,36% do total), puxadas pelo PT (45 eleitas) e pelo PSOL (17).

Em contrapartida, as forças moderadas desidrataram: a centro-direita tradicional encolheu de 33 para 25 deputadas, a centro-esquerda recuou de 23 para 19, e o centro permaneceu sem representação no país.
Diferenças regionais
Os resultados de 2026 mostram ainda a persistência de abismos regionais e barreiras internas ainda acentuadas na maioria dos partidos, quando se trata de participação das mulheres.
A distribuição geográfica revela fortes disparidades federativas. No topo do ranking proporcional, o Ceará registrou a maior taxa de representação feminina do país, elegendo 14 mulheres para 46 cadeiras na Assembleia Legislativa (30,43%), seguido por São Paulo, que formou a maior bancada absoluta feminina da história do estado, com 28 deputadas em 94 vagas (29,79%). Índices elevados foram registrados também no Rio Grande do Norte (29,17%), Roraima (29,17%) e Rio Grande do Sul (29,09%).

Por outro lado, o Acre encerrou a disputa de 2026 sem eleger nenhuma mulher entre as 24 vagas disponíveis (0,0%). O déficit de mulheres eleitas ocorreu também no Centro-Oeste e Norte, com Amazonas, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul elegendo apenas duas deputadas cada (8,33% das vagas).
Bancadas internas expõem desequilíbrio
A análise interna das bancadas revela perfis marcadamente desiguais na priorização de candidaturas femininas. Em números absolutos de deputadas estaduais, a liderança permaneceu com o PT (45 eleitas) e com o PL (43), seguidos por PSD (19), MDB (19) e Republicanos (16).

Quando observamos a taxa de representação interna de gênero — a proporção de mulheres no total de eleitos da legenda —, o PSOL desponta como a legenda de maior densidade feminina do sistema, com 65,38% de sua bancada estadual composta por mulheres (17 de 26 eleitos). O PT figura na sequência, com taxa interna de 31,91% (45 de 141), acompanhado pelo PSB, que alcançou 26,19% (11 de 42).
Já entre os partidos conservadores que mais cresceram, a proporção interna foi diluída pelas amplas bancadas masculinas: o Republicanos registrou 20,51% (16 de 78), o PL marcou 20,28% (43 de 212) e o União Brasil anotou 16,44% (12 de 73). Por outro lado, siglas como Podemos (10,64%), PDT (10,53%), Novo (9,09%) e PSDB (8,00%) mantiveram baixíssima presença feminina.
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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


