O resultado do primeiro turno das eleições municipais de 2024 foi lido pelo noticiário como um “avanço” histórico da direita, com especulações imediatas sobre a disputa presidencial de 2026. Mas os mapas eleitorais contam outra história: a direita já dominava as prefeituras brasileiras desde 2016, e o crescimento deste ano foi de apenas cerca de dois pontos percentuais. Entenda por que a novidade é menor do que parece e por que o que realmente importa para 2026 são as máquinas locais e seus “donos”.
O Desafio Investigado: Na primeira semana após o primeiro turno, o noticiário sugeriu que o campo da direita teria “finalmente” se tornado majoritário no Brasil, com efeitos diretos sobre 2026. O artigo, baseado nas análises de conjuntura do INCT Representação e Legitimidade Democrática (Redem), liderado pela UFPR, questiona essa leitura apressada. O problema central é de perspectiva: ao tratar como novidade um domínio que já existia, a cobertura superestima o avanço da direita e as inferências possíveis sobre a eleição presidencial.
A Proposta Central: A análise dos mapas e do peso do eleitorado mostra continuidade, e não ruptura. A direita amplia levemente um domínio já consolidado, enquanto a esquerda fica restrita a cidades menores.
- Os Números: Em 2016, cerca de 79% das prefeituras eram comandadas por partidos de direita, centro-direita e extrema-direita. Em 2020, a proporção subiu para 84% e, em 2024, chegou a 86% (considerando apenas o primeiro turno). Há um efeito estatístico evidente: um campo já fortemente dominante tem pouco espaço para avançar.
- O Peso do Eleitorado: Considerando o tamanho das cidades, a direita governava 85% do eleitorado em 2020, contra pouco mais de 14% da esquerda. Em 2024, esse contingente chegou a 88%, com a direita dominando as faixas entre 500 mil e 1 milhão de eleitores e acima de 2 milhões, enquanto a esquerda ficou achatada nas pequenas e médias cidades, sobretudo no Nordeste.
- A Novidade Real: O que de fato muda é o surgimento de prefeituras conquistadas pela extrema-direita, sobretudo pelo PL, praticamente inexistentes em 2020.
Implicações e Contribuições: O autor argumenta que os mapas de 2024 dizem pouco sobre a preferência ideológica do eleitor e muito sobre a correlação de forças locais que os candidatos de 2026 terão de enfrentar.
- Ideologia Não Explica o Voto: Os mapas mostram apenas a classificação dos partidos dos prefeitos eleitos. Com baixa identificação partidária e forte peso de razões locais, não é possível inferir que os eleitores votaram por motivos ideológicos. O teste é simples: se a direita já dominava as prefeituras em 2020, por que o Brasil elegeu um presidente de esquerda em 2022?
- O Centro Flexível: Boa parte das vitórias da direita veio de partidos de centro-direita, por vezes chamados de fisiológicos, que se orientam por ganhos imediatos e podem apoiar tanto um candidato de direita quanto de esquerda em 2026, a depender dos nomes e das expectativas de poder.
- As Máquinas Locais: O dado mais relevante para 2026 é a força das máquinas eleitorais e de seus “donos”. Os mapas indicam com quem os presidenciáveis terão de negociar para obter apoio com capilaridade suficiente para fazer diferença nas urnas.
Foto: Fonte: Elaboração Fábio Vasconcellos com dados do TSE e estudo Bolognesi; Ribeiro e Codato (2023)
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