A “defesa da democracia” mudou de lado? Como esquerda e direita disputam o sentido da palavra na Câmara
Mobilizada por Lula para derrotar Jair Bolsonaro em 2022, a bandeira da “defesa da democracia” ganhou vida própria e virou alvo de uma intensa disputa de sentidos na Câmara dos Deputados. Um mapeamento de mais de 4 mil discursos revela que o termo passou a ser usado tanto para condenar quanto para defender os envolvidos no 8 de janeiro. Entenda por que essa inversão pode neutralizar o efeito eleitoral que a bandeira teve em 2022 e o que isso indica para a disputa de 2026.
O Desafio Investigado: Entre 2023 e o início de 2026, os deputados federais mencionaram “democracia” em mais de 4 mil discursos no Plenário e nas comissões. O estudo, realizado pelo INCT Representação e Legitimidade Democrática (ReDem), sediado na UFPR, investiga como o termo foi apropriado por campos opostos. O problema central é a inversão de sentidos: se em 2022 a esquerda convenceu parte do eleitorado de que a reeleição de Bolsonaro ameaçava o regime, agora é a direita, em especial a base bolsonarista, que acusa seus adversários de atentar contra a democracia.
A Proposta Central: A análise dos discursos mostra que a “democracia” no Parlamento é, antes de tudo, um campo de conflito, organizado em torno do 8 de janeiro e de seus desdobramentos judiciais.
- O Recorde de 2025: O ano da condenação de Bolsonaro registrou mais de 1,8 mil menções ao termo, cerca de 11,5% dos 16 mil discursos parlamentares. O pico coincide com o julgamento e a condenação, no STF, dos envolvidos nos ataques às sedes dos Três Poderes.
- A Polarização PT x PL: As duas legendas que lideram a disputa nacional desde 2018 concentraram 63% dos discursos sobre democracia em todo o período, direcionando energia e estratégia para mobilizar a opinião pública.
- As Três Dimensões: Duas dimensões orientadas pelo conflito somam 64% das categorias: a “Democracia Contestada” (44,4%), associada a termos como “golpe”, “anistia” e “Bolsonaro”, e a “Democracia Jurídico-Procedimental” (19,9%), centrada no STF e em Alexandre de Moraes, ora elogiado pela responsabilização, ora acusado de perseguição. Uma terceira dimensão, a “Democracia Substantiva”, ligada a educação, saúde e desenvolvimento, aparece em menor proporção.
Implicações e Contribuições: Os autores argumentam que a disputa pela palavra “democracia” tende a anular os ganhos eleitorais que ela proporcionou em 2022.
- A Neutralização Eleitoral: Com a direita e a extrema-direita dispondo também de uma “defesa da democracia” para chamar de sua, a bandeira perde a capacidade de diferenciar candidatos e pode não surtir o mesmo efeito em 2026.
- O 8 de Janeiro Como Eixo: Os ataques às sedes dos Três Poderes, a denúncia da PGR e o julgamento no STF são o fator determinante da disputa. A anistia funciona como divisor: para um lado, atentam contra a democracia os golpistas; para o outro, os que se recusam a aprová-la.
- Conflito x Gestão: A clivagem que melhor explica os discursos opõe o campo do conflito à dimensão substantiva. O vocabulário da gestão do país, ligado a políticas sociais e direitos, aparece como o mais isolado do debate parlamentar, enquanto a tensão entre o institucionalismo jurídico e a disputa ideológica tem menor poder explicativo.
Foto: Amanda Sangalli
Siga @redem.inct no Instagram e @redem_inct no X para saber mais sobre os estudos realizados por nossos pesquisadores!
Autor


