A virada inédita que levou à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ocorreu por uma expansão da sua votação nas grandes cidades do país. O petista havia terminado o primeiro turno em segundo lugar com 45,16% dos votos válidos (53,88 milhões), mas venceu a disputa no segundo turno com 51,79% (64,25 milhões).
Para realizar essa virada histórica, Lula adicionou 10,37 milhões de novos votos no 2º turno — um ganho quase três vezes superior ao de Flávio Bolsonaro (PL), que somou 3,71 milhões de votos (passando de 47,03% para 48,21%).
A expansão da votação de Lula se concentrou, principalmente, nos grandes colégios eleitorais do país. Nos 12 municípios com mais de 1 milhão de eleitores, Lula obteve o seu maior salto proporcional: avançou 8,01 pontos percentuais (de 45,36% para 53,37%), incorporando mais de 2,32 milhões de votos apenas nessa faixa de cidades. O petista conseguiu ainda expandir a sua já ampla votação nos municípios abaixo de 20 mil e até 50 mil eleitores.

Nas grandes cidades, Flávio Bolsonaro, por sua vez, oscilou apenas 1,87 ponto percentual (de 44,77% para 46,63%). O padrão se repetiu nos municípios entre 500 mil e 1 milhão de eleitores, onde Lula cresceu 7,62 pontos (de 42,06% para 49,68%), contra 1,30 ponto do adversário. Flávio foi mais votado nas cidades médias (faixa de 50 mil a 200 mil eleitores), mas perdeu fôlego nos grandes centros.

Nos mapas, que ajustam as variações em pontos percentuais segundo o tamanho do eleitorado, é possível identificar os principais colégios eleitorais onde Lula ganhou tração com avanço muito superior ao de Flávio.
Embora o candidato do PL tenha mantido a dianteira no interior paulista, no Centro-Oeste e no Sul, sua transição de turnos apresentou um padrão de maior estabilidade. Ele cresceu 2,4 pontos em São Paulo, 0,6 ponto no Rio de Janeiro e recuou 0,3 ponto em Salvador.

A diferença de desempenho decorre da dinâmica de tetos eleitorais e da absorção de novos apoios no segundo turno. Ao atingir 47,03% na primeira fase, Flávio já operava muito próximo de seu teto potencial, enfrentando maiores barreiras para absorver os 9,32 milhões de votos depositados em terceiros candidatos.
Lula, partindo de um patamar mais distante da maioria, encontrou margem para crescer tanto pela atração do eleitorado de centro quanto pela redução da abstenção. Nas capitais, o petista registrou forte aceleração, avançando 8,9 pontos em São Paulo, 7,8 em Belo Horizonte, 7,6 no Rio de Janeiro e 8,0 em Salvador.

Em suma, a eleição de 2026 demonstra que o desfecho do segundo turno foi determinado pela densidade eleitoral das maiores concentrações urbanas do país, e não pela simples manutenção de domínios territoriais.
Enquanto a votação de Flávio Bolsonaro operou próxima ao teto e com baixa margem de crescimento, Lula não apenas preservou sua vantagem nos pequenos municípios, como encontrou nas grandes cidades a massa de votos decisiva para consolidar a virada inédita.
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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


