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A anatomia discursiva de Donald Trump sobre a ação na Venezuela

O primeiro discurso do presidente Donald Trump, após a ação ilegal de sequestro do presidente venezuelano, Nicolas Maduro, foi marcado por uma explícita declaração sobre as razões da operação americana na Venezuela.

Para Trump, que não mencionou o termo “democracia”, o sequestro de Maduro era necessário para que o presidente da Venezuela respondesse à Justiça americana sobre a acusação de tráfico de drogas, mas, além disso, era também necessário abrir espaço para que as empresas americanas de petróleo pudessem explorar as reservas do país latino-americano.

Para uma compreensão mais sistemática do discurso de Donald Trump, analisamos o conteúdo da sua fala e das respostas que apresentou às perguntas dos jornalistas.

A análise considera não apenas a frequência dos termos usados pelo presidente americano, como também a associação desses termos. Com isso, é possível identificar os núcleos do discurso de Trump.

A segmentação desses termos organiza não apenas o conteúdo, mas expõe os pilares retóricos que sustentam a construção simbólica da ação militar como um ato de justiça, reconstrução e liderança.

Os núcleos semânticos

O primeiro núcleo, responsável por 45,1% dos segmentos classificados, é o eixo da legitimação bélica e securitária. Nele, palavras como “militar”, “força”, “segurança”, “terrorista” e “fronteira” constroem um campo semântico de urgência e ameaça. Trump se posiciona como comandante de uma ofensiva necessária, justificando a ação com base na defesa da soberania americana e no combate ao narcoterrorismo.

A presença de termos como “Maduro”, “ditador” e “ameaça” reforça a figura do inimigo externo, enquanto “transição” e “permanecer” indicam a intenção de controle prolongado sob a justificativa de estabilidade regional.

 

 

O segundo núcleo, com 19,1% dos segmentos, desloca o foco para a dimensão econômica e infraestrutural da intervenção. Palavras como “dinheiro”, “petróleo”, “infraestrutura”, “reembolsar” e “companhia” revelam uma retórica de gestão e investimento. Aqui, o discurso abandona o tom combativo e assume uma linguagem pragmática, voltada à reconstrução do aparato produtivo venezuelano.

A presença de termos como “custar”, “gastar” e “reconstruir” sugere uma lógica empresarial aplicada à política externa, onde a ocupação militar se converte em oportunidade econômica — tanto para os Estados Unidos quanto para os venezuelanos exilados.

Por fim, o terceiro núcleo, com 35,6% dos segmentos, revela o registro retórico e emocional do discurso. Palavras como “bem”, “garantir”, “vencer”, “querer” e “assumir” compõem um campo de mobilização política e afetiva. O termo “bem”, contudo, quase sempre apareceu na fala de Trump como um marcador discursivo e não como um advérbio.

De todo modo, é possível dizer que nesse conjunto de termos Trump busca se conecta com seu público, reforçando sua imagem de liderança e projetanto um futuro de redenção nacional. A presença de termos como “Cuba”, “expulsar” e “frente” amplia o escopo geopolítico da fala.

A análise revela, portanto, um discurso tripartido: militar na forma, econômico na função e emocional na entrega. Essa tríade discursiva não apenas estrutura o conteúdo, mas também revela a estratégia comunicacional de Trump — uma retórica que combina força, lucro e carisma para justificar ações de alta complexidade geopolítica.

Fatores explicativos

Ao observarmos o mapa fatorial, percebemos que o discurso de Trump se organiza em torno de duas grandes tensões semânticas que estruturam sua retórica.

O eixo horizontal, correspondente ao Fator 1, revela uma polaridade entre o pragmatismo econômico e a força institucional. Esse fator explica 55,7% do discurso do presidente americano. Mas o que esse fator sugere especificamente?

De um lado, aparecem termos como “dinheiro”, “infraestrutura” e “petróleo”, que remetem à lógica empresarial aplicada à política externa, à reconstrução material e ao retorno financeiro. Do outro, surgem palavras como “americano”, “militar”, “força” e “segurança”, que compõem o vocabulário da autoridade estatal e da ação bélica.

Essa oposição mostra como o discurso transita entre a promessa de reconstrução econômica e a legitimação da intervenção como ato de soberania, articulando simultaneamente gestão e poder.

Já o eixo vertical, correspondente ao Fator 2, e que explica outros 44% do discurso, expõe a tensão entre enfrentamento ideológico e retórica performática. Na base, termos como “ditador”, “ameaça”, “lei” e “transição” reforçam a dimensão política e moral da intervenção, marcada pela denúncia da tirania e pela defesa da ordem institucional.

No topo, aparecem palavras como “bem”, “vencer”, “garantir” e “querer”, que revelam um registro mais emocional e persuasivo, voltado à mobilização do público e à construção de uma narrativa de vitória e redenção (vale considerar que o termo “bem”, como mencionado, não apareceu sempre com advérbio, e sim apenas como marcador discursivo). Essa polaridade evidencia como o discurso se move entre a deslegitimação do inimigo e a conexão afetiva com a audiência, equilibrando denúncia e promessa.

A leitura dos fatores latentes complementa a análise das classes ao mostrar que o discurso não apenas se divide em núcleos temáticos, mas também se organiza em torno de linhas de força que atravessam todo o discurso.

O eixo horizontal traduz a tensão entre economia e poder militar, enquanto o eixo vertical articula ideologia e emoção. Juntos, esses vetores revelam uma retórica que busca legitimar a intervenção não apenas como ação militar, mas como projeto de reconstrução e redenção, capaz de combinar pragmatismo, autoridade e carisma em uma mesma narrativa política.

Observação: a amostra que compôs essa análise considerou 67% dos termos utilizados por Trump e que apresentaram relação semântica.

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Fábio Vasconcellos

  • Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.

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