A informação de que influenciadores digitais foram procurados por empresas de comunicação para disseminar conteúdos pagos nas redes a favor do ex-CEO do Banco Master, Daniel Vocaro, ilustra um típico caso conhecido na literatura especializada como astroturfing.
Diferentemente do modelo tradicional de mobilização da opinião a partir da base, conhecido como grassroots, o astroturfing consiste na simulação artificial de apoio popular por meio de campanhas orquestradas e financiadas por atores institucionais, políticos ou corporativos. A prática ganha contornos dramáticos no ambiente digital devido à sua escalabilidade, baixo custo de execução e capacidade técnica de mimetizar a opinião de cidadãos comuns em proporções massivas.

Um exemplo paradigmático dessa ameaça foi a campanha conduzida pela “Internet Research Agency” (IRA), uma organização estatal russa, durante a eleição presidencial dos EUA em 2016. A IRA utilizou milhares de sock puppets — perfis falsos em redes sociais operados para imitar cidadãos comuns — em uma operação de grande escala.
A dimensão da campanha foi tamanha que o Twitter notificou mais de 1,4 milhão de seus usuários nos EUA por terem interagido com contas provavelmente ligadas à agência.
O fenômeno, contudo, não se restringe a um único país ou evento. Esforços de astroturfing digital foram documentados em diversos contextos políticos, incluindo a eleição presidencial francesa de 2017, o referendo do Brexit no Reino Unido em 2016 e as estratégias sistemáticas de distração e fabricação de comentários online pelo governo chinês.
Tipologias de astroturfing digital
Para uma compreensão mais detalhada desse tipo de campanha, o estudo “Digital astroturfing in politics: Definition, typology, and countermeasures, publicado em 2018 na revista Studies in Communication Sciences por Marko Kovic e seus colaboradores, propõe alguns pontos interessantes de análise.
Os autores partem da definição de astroturfing digital como uma “forma de atividade top-down (de cima para baixo) fabricada, enganosa e estratégica na Internet, iniciada por atores políticos, que imita a atividade bottom-up (de baixo para cima) de indivíduos autônomos”.
Nesse sentido, a classificação de uma ação de astroturfing digital depende da satisfação simultânea de cinco condições: a ocorrência em meio digital, o início por um ator político com objetivos claros, a natureza fabricada da opinião, o intuito deliberado de enganar o público sobre a origem da mensagem e a orientação estratégica para metas predefinidas.
Kovic e colaboradores propõem então uma tipologia do astroturfing digital capaz de identificar 16 cenários distintos de manipulação da opinião, considerando o ator iniciador da ação, o alvo da persuasão e o objetivo da campanha.

Considerando esse modelo, o caso do Banco Master se enquadraria no tipo 8 e também 16: um grupo de interesse que buscou financiar influenciadores para persuadir o público/atores políticos sobre possíveis irregularidades na ação do Banco Central. A finalidade, ao que tudo indica, foi descredibilizar a ação do BC e beneficiar grupos políticos e o Banco Master, que têm interesse que a liquidação não seja efetivada.
Ator político iniciador | Alvo da persuasão | Objetivo: Apoio ou oposição a: | |
Políticas Públicas | Atores Políticos | ||
Governo | O Público | 1 | 2 |
Partido político | 3 | 4 | |
Político individual | 5 | 6 | |
Grupo de interesse | 7 | 8 | |
Governo | Atores políticos | 9 | 10 |
Partido político | 11 | 12 | |
Político individual | 13 | 14 | |
Grupo de interesse | 15 | 16 | |
Nota: Cada número representa um cenário de astroturfing digital como uma combinação de três dimensões. Exemplo: o tipo de astroturfing digital de número 7 descreve um cenário no qual um grupo de interesse tem o objetivo de influenciar a opinião pública sobre alguma questão de política pública.
Repertório de ações
Para operacionalizar o astroturfing, os atores recorrem a um complexo repertório de ações que combina ferramentas tecnológicas com arenas de atuação específicas. O arsenal inclui o uso de perfis falsos geridos manualmente ou por bots e click farms, que provêm engajamento em massa para simular popularidade.
Segundo Kovic, as campanhas podem ainda cooptar identidades reais, utilizando apoiadores pagos ou simpatizantes que, muitas vezes, são instrumentalizados de forma orquestrada sem plena consciência de que integram uma iniciativa fabricada.
Essas ações se desdobram em arenas como redes sociais, portais de notícias falsos e, especialmente, seções de comentários, onde a sinalização passiva por meio de curtidas e compartilhamentos molda a percepção do leitor médio sobre a “temperatura” do debate.
Em resumo, o astroturfing digital representa uma ameaça à democracia contemporânea, pois a natureza essencialmente enganosa e estratégica subverte o ideal da participação dos cidadãos no debate público.
Ao fabricar falsos debates e distorcer a comunicação política, o astroturfing não apenas engana o cidadão, mas corrói a integridade da tomada de decisão democrática, transformando o que deveria ser um diálogo orgânico de “baixo para cima” em uma encenação manipulada por lideranças e grupos de interesse.
Referência
KOVIC, M.; RAUCHFLEISCH, A.; SELE, M.; CASPAR, C. 2018. Digital astroturfing in politics: Definition, typology, and countermeasures. Studies in Communication Sciences. Zurique, Suíça, Volume 18, Número 1, Página 69–85. Disponível em: https://doi.org/10.24434/j.scoms.2018.01.005. Acessado em 08/01/2026.
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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


