As democracias liberais enfrentam muitos desafios, mas um deles tem se tornado sistêmico. Há um conflito aberto entre a necessidade de um debate cívico informado e fundamentado e a lógica comercial da economia da atenção.
Plataformas digitais, ao buscarem a maximização do tempo de permanência, frequentemente priorizam conteúdos de alta carga emocional em detrimento da precisão e da qualidade das informações.
Esse design algorítmico não apenas altera o modo de consumo individual de informação, como também força lideranças e a imprensa a operarem em uma “guerra pela atenção”, na qual a qualidade da esfera pública é sacrificada em nome da visibilidade.
Nos últimos anos, uma série de estudos tem apresentado evidências desses efeitos. A mais recente delas foi publicada este mês na revista Nature. Intitulada “The political effects of X’s feed algorithm”, a pesquisa mostra que a exposição ao feed algorítmico do X (antigo Twitter) aumenta o engajamento, desloca significativamente as opiniões em uma direção mais conservadora, e promove um apagamento de veículos de imprensa.
A diferença entre seguir o algorítmo e o fluxo cronológico do X
Conduzido por Germain Gauthier e colegas, o estudo consistiu na aplicação de um experimento de campo realizado em 2023 com usuários do X nos EUA. Os dados foram coletados após a aquisição da plataforma por Elon Musk, mas cerca de um ano antes de seu apoio público a Donald Trump em 2024, o que permite isolar a lógica intrínseca do algoritmo de influências retóricas posteriores do proprietário.
O estudo realizou um experimento controlado de sete semanas, no qual os participantes foram designados aleatoriamente para o feed algorítmico (“Para você”) ou para o feed cronológico (“Seguindo”).

Com isso, a pesquisa mediu as mudanças em atitudes políticas e no comportamento online, especificamente na decisão de seguir novos perfis. A abordagem permitiu ainda identificar como a curadoria automatizada atua como um filtro ativo na formação de opinião, isolando variáveis que experimentos puramente observacionais não conseguem capturar com tamanha precisão.
Reforço de opinião pré-existente
Além de aumentar o engajamento e induzir um deslocamento das opiniões para posições mais conservadoras, o estudo identificou uma assimetria demográfica crucial: o impacto das recomendações do X foi observado quase exclusivamente entre republicanos e independentes, enquanto as visões dos democratas permaneceram amplamente inalteradas.
Esse dado sugere que o algoritmo atua com maior eficácia quando encontra uma predisposição ideológica, amplificando inclinações preexistentes em vez de converter opositores ferrenhos. Segundo o estudo, o impacto do uso do X manifestou-se de três formas:
Prioridades de políticas públicas: aumento da urgência conferida a temas como inflação, imigração e criminalidade.
Percepção jurídica: maior tendência a ver as investigações criminais contra Donald Trump como inaceitáveis ou politicamente motivadas.
Geopolítica: crescimento de atitudes pró-Kremlin e visões críticas em relação ao governo da Ucrânia e ao presidente Zelensky.
O apagamento da imprensa
A análise de conteúdo detalhada explicitou, ainda, uma substituição sistêmica da mediação informativa. O algoritmo do X promoveu ativamente conteúdos conservadores (+2,9 pontos percentuais) e provocou um salto de quase 28% na presença de vozes de ativistas políticos (+27,4%).
Em contrapartida, observou-se o que podemos chamar de um colapso das balizas tradicionais da praça pública digital: a visibilidade de veículos de imprensa tradicional teve uma redução drástica de 15,5 pontos percentuais, o que representa uma queda de 58,1% na exposição desses conteúdos em comparação ao feed cronológico. Essa demolição da mediação jornalística contribuiu para a degradação do ecossistema de informação, substituindo fatos verificados por indignação e ativismo puro.
Efeitos persistentes
Outro resultado da pesquisa refere-se ao “mecanismo de persistência”. O estudo demonstrou que, embora ativar o algoritmo altere opiniões, desativá-lo não reverte seus efeitos no curto prazo. Isso ocorre devido a uma reconfiguração do grafo social.
Ou seja, o algoritmo atua como uma “porta de entrada” que induz o usuário a seguir novos perfis de ativistas. Uma vez estabelecido esse vínculo, esses perfis continuam aparecendo no feed cronológico do usuário mesmo após o algoritmo ser desativado. Assim, o dano à autonomia informativa persiste porque a lista de contas seguidas foi permanentemente alterada pela intervenção algorítmica prévia.
Do ponto de vista do debate na esfera pública, o estudo revela que o poder do algoritmo reside mais em uma “curadoria da realidade” e no agendamento de temas (agenda-setting) do que na conversão identitária. Embora o algoritmo tenha mudado opiniões sobre temas específicos, ele não alterou significativamente a polarização afetiva — o ódio ou a desconfiança em relação ao grupo oposto — nem a identificação partidária de base.
Em resumo, as evidências apresentadas por Gauthier e seus colegas indicam que o design das redes sociais está realizando uma curadoria assimétrica da realidade.
Ao privilegiar o ativismo em detrimento da imprensa profissional, o algoritmo não apenas reflete preferências, mas molda ativamente os fluxos de opinião. Nesse contexto, é fundamental que a discussão sobre a regulação das redes avance para além da moderação de conteúdo, focando na transparência dos mecanismos de recomendação que decidem, silenciosamente, o que deve ser visto ou escondido no debate público.
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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


