Há algumas semanas, grandes veículos de imprensa no Brasil e no exterior começaram a se movimentar para pressionar empresas que desenvolvem inteligência artificial generativa, como o ChatGPT, Gemini, Copilot, entre outros, a pagarem por conteúdo extraído dos sites jornalísticos.
A disputa ocorre porque os buscadores tradicionais, como o Google, passaram a apresentar resumos de conteúdo jornalístico, sempre que uma pessoa faz uma busca por informações.
Essa mudança tem reduzido o tráfego nos sites dos grandes jornais, porque menos pessoas clicam nos links das informações, limitando a leitura ao resumo apresentado pelas IAs.
Impacto na qualidade da informação política
Embora a disputa envolva questões financeiras e de direitos autorais, há uma questão de fundo significativa nessa mudança. A tendência das pessoas de se informarem por resultados produzidos por IA transfere mais poder para as empresas de tecnologia. Os modelos algorítmicos, que já afetam há décadas o ambiente digital, ganham, nesse sentido, mais uma escala na capacidade de orientar as informações para as audiências.
No debate entre especialistas, há o temor de que o impacto dessas mudanças ocorra não apenas nas empresas de comunicação, mas, sobretudo, na qualidade da informação que as pessoas buscam na internet. Agora eles ficam ainda mais dependentes da pesquisa organizada e apresentada pelas IAs, a partir de critérios que desconhecemos.
Como anda a democracia brasileira, segundo a IA
Às vésperas do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe e com a campanha presidencial de 2026 antecipada em quase um ano, cresce também a demanda por mais informação. A importância simbólica do momento levou a revista The Economist a elogiar, esta semana, a democracia brasileira, afirmando que o Brasil dá exemplo para os EUA.
Nesse contexto de julgamento e mudanças na rede, fizemos um teste simples para verificar como as principais IAs se comportam a partir de uma única questão. Imagine que um cidadão comum usasse a IA para sabe qual o estado da democracia no Brasil, segundo o atual contexto.
O teste foi realizado com o GPT (OpenIA), Gemini (Google), DeepSeek (Hangzhou), Claude (Anthropic) e Copilot (Microsofit). Para cada IA, foi apresentado o mesmo prompt:
“Tomando por base o contexto atual do Brasil, qual nota você daria para a qualidade da democracia no Brasil, considerando uma escala de 0 a 10, em que zero é uma democracia que não atende aos princípios básicos e 10 significa atende plenamente os princípios básicos”.
Na sequência, apresentamos um segundo prompt, desta vez, especificando o pedido de avaliação de sete temas relativos à democracia:
“Qual a sua nota de 0 a 10 para cada um desses eixos da democracia do Brasil. Justifique a sua nota: 1. Processo Eleitoral 2. Liberdades Civis e de Imprensa 3. Instituições de Controle e Equilíbrio de Poderes 4. Polarização Política e Desinformação 5. Funcionamento do Governo e Representatividade 6. Estado de Direito e Combate à Corrupção 7. Participação Política e Desigualdade Social”
Neste post, vamos analisar primeiro as notas para o primeiro e o segundo prompt. Em outra publicação, vamos examinar as justificativas apresentadas pelas IAs.
Processo eleitoral é o mais bem avaliado pelas IAs
A primeira conclusão é que as IAs dão nota média de 6,49 para a democracia brasileira. É como se essas ferramentas indicassem que vivemos em uma democracia, mas ela ainda está longe do modelo ideal.
Quando verificamos a avaliação por item (segundo prompt), vemos que as IAs dão a maior nota para o Processo Eleitoral brasileiro, com média 8,6.
O DeepSeek e o Copilot apresentaram a maior nota (9), enquanto a mais baixa foi dada pelo Gemini (8). A pior nota média das IAs ocorre no quesito Polarização e Desinformação (3,9), com a DeepSeek sendo a mais rigorosa delas (3).
Outro dado que chama atenção é a amplitude dos dados, isto é, a diferença entre a maior nota e a menor nota em cada quesito.
A maior amplitude ocorreu no quesito Instituições de Controle e Equilíbrio de Poderes. Embora a nota média tenha sido de 6,3, a amplitude chegou a 2,5 pontos, indicando que esse item é o que as IAs apresentam maior divergência.
“Nota de bondade” em todas as IAs
Um terceiro ponto que chama atenção. Quando calculamos a média das notas de cada IA para cada item e comparamos com a nota dada inicialmente para democracia brasileira por cada IA, encontramos uma divergência curiosa.
A nota média para a democracia apresentada por cada IA é superior à média das suas notas para os sete itens avaliados. Em outras palavras, cada ferramenta deu uma nota para democracia no Brasil superior às notas apresentadas por elas mesmas para os itens avaliados. Aparentemente, as IAs acrescentam uma espécie de “nota de bondade” para corrigir a avaliação dos itens.
A maior nota de bondade foi registrada pelo GPT. Sua nota geral para a democracia no Brasil difere 0,87 das notas que apresentou para os sete itens. A segunda maior nota de bondade foi para chinesa DeepSeek: 0,71. A IA com menos nota de bondade foi a Claude, que apresentou apenas 0,29 de diferença entre a nota da democracia e a média das suas notas dos sete itens.
Esse é um teste simples, em que buscamos examinar como as IAs interpretariam para um cidadão comum a democracia no Brasil. De uma maneira geral, elas não diferem muito da nota média de 6,46. Contudo, é curioso a maior divergência no quesito Instituições de Controle e Equilíbrio de Poderes. Ou seja, a depender de qual IA uma pessoa utilize, ela pode ter acesso a uma informação relativamente diferente de outra IA nessa questão.
Em um segundo post, vamos avaliar as justificativas dadas pelas IAs, dado que pode nos ajudar a compreender como essas tecnologias estruturam esse tipo de informação.
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Fábio Vasconcellos
Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.