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Descompasso ambiental: entre um Congresso emissor de CO₂ e uma opinião pública verde

Escrito por: Gustavo César M. Ribeiro, Dayane Muhlbeier Saleh, Fábia Berlatto e Mateus Albuquerque

Enquanto 80% dos brasileiros exigem prioridade no combate ao aquecimento global, a Câmara dos Deputados segue na contramão, aprovando leis que favorecem emissões de gases estufa. O que explica esse descompasso brutal? Um novo Policy Brief do INCT-ReDem revela como o lobby do agronegócio e a ideologia partidária criaram um ‘Congresso emissor’, ignorando uma opinião pública cada vez mais verde. Entenda os dados desse abismo e as propostas para reconectar o voto do deputado à vontade do eleitor.

O Desafio Investigado: O Brasil vive uma contradição democrática na agenda climática: o “descompasso” entre as preferências da sociedade e a atividade parlamentar. O artigo investiga por que, apesar de uma população majoritariamente preocupada com o meio ambiente e contrária ao desmatamento, o Congresso Nacional (2019-2023) tem produzido sistematicamente legislações antiambientais e favoráveis à emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE).

A Proposta Central: Cruzando dados legislativos com pesquisas de opinião, o estudo traça dois perfis opostos:

  1. O Legislativo Emissor: Utilizando o inovador CO₂-Index, os autores mostram que mais de 50% dos deputados têm atuação “sistematicamente antiambiental”. Há uma correlação clara: partidos de direita (PL, PP, NOVO) e membros da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) lideram o perfil emissor, enquanto a esquerda tende a ser mitigadora.
  2. A Opinião Pública Verde: Segundo a pesquisa PVAAA, 80% dos brasileiros querem prioridade máxima contra o aquecimento global e rejeitam pautas como garimpo em terras indígenas e flexibilização do licenciamento ambiental.

 

Evidências e Argumentos: O estudo destaca duas complexidades cruciais:

  • O Paradoxo Amazônico: Residentes da Amazônia rejeitam a destruição (garimpo/madeira), mas 70% avaliam positivamente o agronegócio e apoiam a expansão de áreas agrícolas, criando um desafio para políticas de “desmatamento zero”.
  • Vulnerabilidade à Desinformação: Classes de renda C e D mostram alta suscetibilidade a acreditar e compartilhar notícias falsas sobre o clima, embora residentes da Amazônia sejam curiosamente mais resistentes a compartilhar esses conteúdos.

 

Implicações e Contribuições: Para fechar esse abismo, o Policy Brief recomenda:

  • Responsabilização: Criação de um “Relatório Anual de Impacto Climático Legislativo” para dar transparência ao voto “sujo”.
  • Comunicação Empática: Uso de cientistas e comunicadores que traduzam dados técnicos para a linguagem do cotidiano (focada em enchentes, calor, seca), combatendo a pecha de elitismo da pauta ambiental.
  • Educação Midiática: Focada em rastreabilidade de fontes para as classes mais vulneráveis à desinformação.

 

 

Foto: AP Photo / Eraldo Peres

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Autores

Gustavo César M. Ribeiro – Professor na Pós-Graduação em Ciência Política, Universidade Federal do Pará (UFPA).
Dayane Muhlbeier Saleh – Doutoranda em Ciência Política, Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Fábia Berlatto – Pesquisadora de pós-doutorado na área de Administração Pública e Governo, Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Mateus Albuquerque – Doutor em Ciência Política e pesquisador, Instituto Representação e Legitimidade Democrática (INCT/ReDem)