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Realinhamento ideológico, e não apenas devoção a Bolsonaro, alimentou ações do 8 de Janeiro

A invasão das sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 não se explica apenas pela devoção a Jair Bolsonaro. Um novo estudo, publicado na revista Opinião Pública, mostra que a ofensiva contra as instituições brasileiras teve uma força motriz estruturada: um alinhamento ideológico de direita que não apenas cresceu nos últimos anos, como se consolidou em torno de visões extremas sobre políticas públicas.

Segundo a pesquisa, a rejeição ao casamento homoafetivo e à intervenção do Estado para reduzir desigualdades estão fortemente associadas ao apoio aos atos de ruptura. Entre os eleitores bolsonaristas que se opõem à união civil entre pessoas do mesmo sexo, a chance de apoiar as manifestações chegou a 40% — taxa que despenca para 25% bo grupo favorável a esse direito.

O artigo “As bases ideológicas do apoio a atos antidemocráticos entre os eleitores de Bolsonaro em 2023”, assinado pelos cientistas políticos Mario Fuks e Pedro Marques, oferece um contraponto documentado à tese da polarização puramente afetiva.

Por anos, parte da análise política nacional avaliou que o eleitorado médio agia movido apenas por emoções e pela identificação a líderes como Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, atestando uma suposta ausência de consistência em valores políticos na sociedade.

Fuks e Marques confirmam a existência do comportamento afetivo no cenário atual, mas avançam ao calcular se o abismo entre o lulismo e o bolsonarismo carrega também distâncias pragmáticas.

Reposicionamento ideológico dos eleitores

Para chegar a essas conclusões, os autores analisaram primeiro as séries históricas de posicionamento ideológico no Brasil. O primeiro indicador foi a percepção do eleitorado sobre a polarização política.

Em 2002, a média da distância ideológica apontada pelos eleitores entre os principais partidos da época (PT e PSDB) era de cinco pontos. Hoje, a distância atribuída entre o PT e o PL saltou para 6,8 pontos em uma escala de zero a dez.

Ou seja, na ótica da população, os grandes partidos tornaram-se campos programáticos antagônicos em grau muito superior a períodos eleitorais anteriores.

Os autores apontam ainda que os brasileiros não apenas veem PT e PL como partidos antagônicos, mas também se posicionam de forma cada vez mais distinta.

A evolução do autoposicionamento ideológico demonstra que o engajamento partidário mudou entre 2002 e 2022.

Na média, os eleitores de direita de 2022 agruparam-se muito próximos do ponto nove da escala partidária, consolidando um bloco conservador de extremos inédito na série histórica pré-Bolsonaro. Por outro lado, a base do PT seguiu um movimento simétrico, ancorado de forma mais decisiva na esquerda a partir de 2014.

Ideologia e apoio às manifestações

Até o início na década de 2010, a disputa político-eleitoral nas pesquisas mostrava focos prioritários em propostas administrativas, e não evidenciava um antagonismo moral agressivo. Hoje, o abismo na percepção de pautas progressistas, de políticas de segurança pública e da atuação do Estado na economia atingiu um novo patamar.

Eleitores alinhados à direita endureceram sua oposição ao casamento civil igualitário, engrossaram o apoio à pena de morte e tornaram-se abertamente contrários às dinâmicas de distribuição de renda. A consolidação dessa nova identidade política antissistema preparou o terreno para a insurgência. 

Ao estimar a influência dessas opiniões sobre os atos antidemocráticos, os pesquisadores revelaram que a quebra institucional não foi abraçada de forma homogênea por todos os conservadores. O apoio ao extremismo mostrou-se associado ao grau de intolerância programática do cidadão.

“Em alguns casos, os eleitores bolsonaristas que manifestam posições mais extremas têm quase duas vezes mais chances de apoiar manifestação desse tipo e de participar delas do que aqueles que adotam posições mais progressistas”.

O descolamento fica evidente nas pautas econômicas: entre os bolsonaristas que rejeitam ações do Estado para reduzir desigualdades, os resultados apontam que a chance de apoiar os atos de 8 de janeiro foi de cerca de  47% — contra apenas 26% de propensão verificada na fatia que defende a redistribuição.

No eixo da segurança pública militarizada, a regra se mantém: defensores radicais da pena capital apresentaram 43% de propensão para legitimar as ações intervencionistas, frente a 26% dos cidadãos contrários à medida punitiva máxima.

“Esse resultado se mantém mesmo quando controlado pela afeição ao PL de Bolsonaro, o que sugere que não se trata apenas de uma reação emocional motivada pelo vínculo afetivo com o candidato derrotado. A ideologia, representada pelo conservadorismo e pela distância em relação ao governo de esquerda, desempenha um papel igualmente decisivo”.

A conclusão é de que a raiz antidemocrática não vive apenas de adoração personalista ou do luto momentâneo nas urnas. O engajamento constante nos acampamentos em quartéis e a invasão da Praça dos Três Poderes provêm de um genuíno alinhamento programático contra a Constituição formulada em 1988, sustentado por uma parcela reacionária do eleitorado.

A mecânica espelha o fenômeno ocorrido nos Estados Unidos, que abriu as portas para o ataque ao Capitólio após a derrota de Donald Trump. Nas duas democracias, um parte dos eleitores atuou incendiada pelos ex-presidentes, mas a ação em si apenas prosperou  porque conseguiu mobilizar eleitores fundamentados em crenças estritas e inegociáveis.

 
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Fábio Vasconcellos

  • Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.

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