Nos últimos anos, o debate público tem focado bastante nas razões, características e consequências da chamada “polarização” política no Brasil. Embora inúmeras pesquisas sugiram que há, sobretudo a partir de 2018, um realinhamento ideológico e afetivo entre eleitores e lideranças, a magnitude desse fenômeno tem sido, muitas vezes, superdimensionada. Essa leitura, muito influenciada pelo ruído das redes sociais, prejudica a compreensão do fenômeno.
A ideia de “Brasil polarizado” virou um espécie de guarda-chuva conceitual, com capacidades sobrenaturais de explicação social e política. De tão batida, perdeu, a meu ver, força, ou, na pior das hipóteses, sequer deveria ser mobilizada com a frequência com que vemos no debate público, porque mais prejudica que ajuda.
Polarização ideológica vs Polarização afetiva
Sistemas polarizados implicam uma distribuição bimodal, com campos antagônicos que se orientam por razões ideológicas, afetivas ou pela associação desses dois vetores. Nesse modelo, o centro desaparece, e as duas pontas disputam a atenção política.
Enquanto na polarização política os dois grupos divergem sobre visões de mundo e políticas públicas, a polarização afetiva assenta-se em uma relação de cunho emocional, fortemente orientada pela adesão ao grupo de referência e pela rejeição radical (ódio, raiva) àqueles de fora do grupo.
Essa distribuição existe? Sim, mas não na dimensão nem em todas as circunstâncias que ouvimos repetidamente. Por exemplo, quando falamos de “polarização” estamos nos referindo ao comportamento da elite política, das redes ou do conjunto da sociedade? Esse é um ponto relevante que, muitas vezes ou é negligenciado ou tratado como coisas iguais. Não são.
Polarização com terceiro campo?
Vamos observar exclusivamente dados conjunturais. Em março, a Quaest perguntou aos eleitores como avaliavam o governo Lula: 43% avaliaram negativamente, 31% positivamente e 25% disseram que o governo é regular.
A inclinação mais negativa, porém com três grupos definidos, repetiu-se em outras perguntas, como na avaliação da economia. Mesmo na pergunta sobre intenção de voto (cenário 1), Lula pontuou 37%, Flávio Bolsonaro 30%, e a soma dos demais candidatos, brancos e nulos, chegou a 33%.
Essa distribuição não constitui um modelo polarizado. Embora possamos dizer que existem eleitores mais bem posicionados à esquerda ou à direita, constituindo um modelo bimodal, a existência de um terceiro grupo desafia o argumento de uma “sociedade polarizada”.
Fenômeno localizado
Como muitas pesquisas acadêmicas vêm demonstrando, a polarização brasileira está restrita a segmentos mais engajados da sociedade — aqueles mais atentos à política, que se orientam, sobretudo, pelas figuras de Lula e Bolsonaro. Essas lideranças mobilizam sentimentos opostos (antipetismo e antibolsonarismo) que estruturam um sistema classicamente polarizado, caso você omita do modelo a existência do terceiro grupo.
Parte do superdimensionamento da hipótese do “Brasil polarizado” deve-se à aplicação, sem ponderação, do modelo bipartidário americano, contexto no qual essa questão foi inicialmente identificada.
Em sistemas multipartidários, como o nosso, essa transferência não é direta. A diversidade de forças políticas, a facilidade com que novas lideranças superam as barreiras de entrada nos partidos ou ainda o personalismo, em razão da baixa identificação partidária, são ingredientes que sugerem uma maior cautela quando falamos em “país polarizado”.
A beligerância das redes, estas sim, polarizadas segundo o que passa na sua timeline, não é representativa. Se saímos das redes, o diagnóstico de polarização generalizada deve dialogar com outras variáveis e dimensões.
Escolha binária vs comportamento polatizado
Aparentemente, a polarização no Brasil estaria associada ao contexto eleitoral, quando as intenções de votos desenham um modelo com baixa capacidade de mobilização pelo centro. Mesmo assim, quando testamos cenários de segundo turno, precisamos ter cautela para não confundir o modelo que “exige” uma escolha binária com polarização de fato.
Parte dos eleitores independentes ou de centro, como muitos se autodenominam, pode ser convencida a votar em um candidato, mas isso não corresponde, necessariamente, a um comportamento polarizado do ponto de vista ideológico ou afetivo. Pode ser voto estratégico ou rejeição por diversos outros fatores. Há nuances que, creio, têm sido negligenciadas.
Nos cenários de segundo turno, para ilustrar outra nuance, a Quaest identificou entre 18% e 33% dos eleitores que simplesmente não votam nem em Lula, nem no candidato de oposição. Esse dado indica de forma latente que o Brasil teria, na verdade, uma “polarização restrita”, se assim pudermos designar.
Polarização restrita?
A “polarização restrita” se manifestaria em momentos decisivos, eleições por exemplo, mas ela não se manteria no momento subsequente, como podemos inferir a partir das avaliações de governo e em outros temas de conjuntura após a distribuição dos votos no Brasil em 2022. O “país polarizado” de 2022, aparentemente, não se manteve nos anos seguintes; a polarização das elites políticas no Parlamento e nas redes? Me parecem que sim.
Paradoxalmente, a “polarização restrita” se evidencia também quando estimulamos os eleitores a pensarem, via pesquisas de opinião, em temas que mobilizam visões de mundo (aborto, direitos da mulher, pena de morte, presença do Estado na Economia). Nesse caso encontramos diferenças, mas não nos perguntamos: desde quando não foi assim? E por que esse comportamento não seria esperado?
Embora as diferenças possam ter se acentuado, sugerindo uma polarização ideológica mais clara no Brasil recente, deve-se trazer para o debate um segundo argumento: e por que isso é um problema? Não é. E talvez aqui a questão seja a sobreposição que fazemos entre polarização afetiva (esta sim um problema grave para as democracias) com a polarização (se for o caso) ideológica. Esta não é, necessariamente, um problema, nem deveria ser superdimensionada.
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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


