A era dos presidentes blindados chegou ao fim. Em janeiro de 2015, o “piso” histórico de aprovação dos governos brasileiros desabou e não se recuperou mais.
Independentemente de a economia ir bem ou mal, o apoio básico a quem ocupa o Palácio do Planalto encolheu cerca de 21 pontos percentuais em média. Essa fratura estrutural inaugurou um período em que o eleitor se tornou hiper-reativo ao custo de vida.
Essa é a conclusão de uma análise de dados que cruzou 25 anos (2001-2026) de popularidade presidencial com o histórico de inflação (IPCA) e desemprego no país.
Para garantir a precisão, o estudo observou a economia do trimestre imediatamente anterior a cada pesquisa realizada pela MDA no período, testando matematicamente se o bolso apresenta associação com o nível de aprovação presidencial.
Os dados mostram que, até 2014, o cenário era de resiliência. Naquele período de estabilidade, oscilações na inflação ou no mercado de trabalho não arranhavam a popularidade dos governos.
Ao isolarmos o impacto de cada indicador naquele período, os dados mostram uma espécie de “blindagem”. As altas pontuais de preços ou os solavancos no mercado de trabalho não geravam quedas estatisticamente significativas na aprovação presidencial. Os chefes do Executivo surfavam em uma inércia positiva e mantinham um patamar quase intocável de aprovação.
Isso, claro, não significava que a economia não importava. Significava que o “clima” político ou mesmo diversos outros fatores contribuíam para amortecer impactos gerados pela variação da inflação ou do desemprego. O brasileiro tinha uma tolerância maior a essas variações.

Nos testes, apenas quando controlamos a análise pelo corte temporal de 2015 é que a relação entre economia e popularidade ganha significância estatística. A combinação do cenário econômico com essa abrupta mudança de patamar político passa a explicar quase metade (cerca de 44%) de todas as variações da popularidade presidencial do período.
Mudança de patamar
O colapso de 2015 alterou o contrato social e a regra do jogo. O brasileiro passou a vigiar a economia de forma punitiva. Neste novo cenário, os papéis se separaram: enquanto a geração de vagas continuou sem força para alavancar presidentes, o controle de preços assumiu o protagonismo isolado como gatilho de insatisfação.
O modelo estatístico demonstra que, na era atual, a punição ocorre no curtíssimo prazo. Quando os testes encurtam a janela de observação para apenas dois meses, vemos que acada 1% de inflação acumulada em um bimestre reduz cerca de 3,6 pontos de popularidade do presidente em exercício. O eleitor perdeu a paciência.
Outro dado importante de observar. O corte de janeiro de 2015 ocorreu no início do segundo governo Dilma, que terminaria em agosto de 2016, com a aprovação do impeachment. Naquele momento, o país mergulharia em uma crise econômica profunda, e sofreria ainda com o impacto com a Pandemia em 2020.
O piso e o teto de Lula 3
A nova matemática política pós-2015 ajuda, em parte, a decifrar o atual “paradoxo de Lula”. Hoje, o governo apresenta as menores taxas de desemprego da história recente, mas a sua aprovação não decola.
Há inúmeras explicações para esse fenômeno, mas, nos testes que realizamos, e com as limitações dos dados, tudo indica que o desemprego perdeu força como alavanca de aprovação.
No modelo testado, a bússola dos indicadores aponta para a direção esperada, com altas tanto na inflação quanto no desemprego puxando a curva da popularidade para baixo na era pós-2015.
No entanto, há uma diferença nesses dois vetores. O coeficiente do desemprego não atinge o rigor mínimo exigido pela estatística para provar uma correlação com a aprovação, diferentemente da inflação, que se consolida como uma âncora pesada.
Ou seja, é como se a manutenção do emprego fosse vista atualmente quase como uma obrigação dos governos, não como motivo para aplausos, sobretudo se a renda gerada é corroída por preços altos.
Temos assim uma assimetria. O eleitor pune severamente a inflação, mas não recompensa o baixo desemprego. Somado a isso, o teto de vidro herdado daquela queda de 21 pontos em 2015 impede que o presidente converta eventuais sucessos econômicos em grandes saltos de popularidade.
Apesar disso, o gráfico abaixo mostra que Lula 3 ainda opera em um nível de popularidade acima do esperado. Ele está vários pontos percentuais acima da projeção do modelo pós-2015, mas bem longe do teto histórico da regra pré-2015.
Ou seja, há outros fatores para além da economia (inflação e desemprego) que contribuem para que Lula se descole levemente do piso, mas, nesse novo cenário, isso não é mais suficiente para repetir padrões de aprovação pré-2015.

Limitações
Importante. É preciso ressaltar as limitações inerentes desse tipo de análise. A pesquisa isola o termômetro macroeconômico, mas a aprovação pública, como se sabe, é um fenômeno complexo, também movido por crises, escândalos e inércia política (a opinião de um mês influencia fortemente o mês seguinte).
Além disso, trabalhamos com apenas dois indicadores e limitados ao total de pesquisas da MDA no período (106 pontos). Quando fazemos o corte temporal, as amostras pré e pós-2015 se reduzem, afetando as coeficientes de correlação.
Outro ponto. A taxa de desemprego mudou de metodologia. Entre 2001 e 2012 (PME) depois, PNAD. Para contornar esse problema, consideramos a variação em pontos percentuais exclusivamente dentro do trimestre de cada série. O momento da troca da PNAD para PME não entrou no calculo para não contaminar os trimestres.
Mesmo com essas ressalvas, o diagnóstico parece apontar em uma direção de um novo país. A ruptura do pós-2015 sinaliza um Brasil de governabilidade frágil. Com um apoio estrutural reduzido e um eleitorado que não perdoa a inflação, sugerindo que a margem de erro para qualquer presidente tornou-se praticamente nula.
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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


