Há um ponto cego nas análises políticas no Brasil. Raras vezes comentaristas e jornalistas consideram em seus argumentos sobre comportamento eleitoral do brasileiro a variável “hábitos de consumo de informação”.
Esse dado chama a atenção porque contrasta com a hipótese bastante alardeada de “país polarizado”, cenário em que dois grupos políticos, expostos diariamente a um excesso de informações, tensionam o debate público e fazem escolhas políticas.
Mesmo quando abordam as dificuldades dos índices de aprovação do Governo Lula, as análises consideram a dimensão da comunicação pela perspectiva do polo emissor, ou seja, “onde”, “como” e “por que” a comunicação do Governo falha. Pouco se fala sobre como o brasileiro se informa ou como o ecossistema atual afeta a maneira pela qual “acessamos” o mundo político.
Embora a atenção esteja hoje voltada mais para a corrida das intenções de voto, fui atrás de alguns dados das pesquisas Quaest sobre consumo de informação dos brasileiros. O que esses dados nos dizem?
Mundos distintos
Neste primeiro gráfico, é possível observar uma diferença consistente entre eleitores de esquerda e direita. É como se eles vivessem e percebessem mundos distintos.
Quando perguntados sobre as notícias predominantes sobre o Governo, Lulistas e Esquerda Não Lulista consideram que há mais notícias positivas do que negativas, com os percentuais variando de 62% a 53%.
No outro grupo, Bolsonaristas e Direita Não Bolsonarista acreditam no oposto. Para eles há mais notícias negativas do que positivas (71% a 77%). Os eleitores Independentes seguem a mesma tendência, com notícias mais negativas que positivas.

Esse comportamento reforça uma tese conhecida nos estudos sobre comportamento eleitoral, em especial, aqueles que observam os efeitos da comunicação: a atitude política, quase sempre, orienta as nossas percepções, minimizando o impacto de informações que contrariam nossas visões.
A leitura oposta diz que tendemos a superestimar as informações que se alinham às nossas atitudes políticas, e a subestimar aquelas que nos contrariam.
Nessa perspectiva, enquanto o campo da esquerda tende a minimizar ou mesmo evitar notícias negativas, os eleitores de direita superestimam o conteúdo negativo sobre o Governo. Em ambos os casos, esse comportamento tende a reforçar as atitudes prévias.
Digital: meio preferido para buscar informação política
Curiosamente, as posições políticas estão também associadas ao tipo de mídia preferida por esses eleitores. A série histórica da Quaest mostra que, na média, o brasileiro tem utilizado mais meios digitais (redes sociais, blogs e sites), com 47% das preferências, para se informar sobre política. Os meios tradicionais (TV e Rádio) ficam em segundo lugar com 38%.

A comunicação no ambiente digital é mais dispersa, apresenta mais ruído e tem grande potencial de segmentação. É o oposto do que acontece nos meios tradicionais dominados pelo jornalismo e seus códigos. A comunicação tende a ser mais unificada e tem menos ruído. Apesar de algumas redes terem inclinações mais à direita ou mais à esquerda, existe certo esforço para a moderação.
Independentes entre o digital e o tradicional
Nesse ponto, é interessante observar como os três campos políticos se distribuem entre o uso da mídia digital e tradicional. A base Lulista prefere, predominantemente, os meios tradicionais (53%). Na Esquerda Não Lulista houve uma mudança entre dezembro de 2025 e março deste ano. Eles passaram a adotar mais o digital (39%) que o tradicional (33%).
No campo da direita, sejam eles Bolsonaristas ou não, o meio preferido é o digital, com percentuais variando entre 54% e 49%. No grupo dos Independente, que os analistas apostam que vão decidir a eleição presidencial deste ano, a preferência entre o digital e o tradicional está tecnicamente empatada na margem de erro: 38% x 35%.

As diferenças no consumo de informação revelam que o desafio da comunicação governamental ultrapassa a barreira do conteúdo. Enquanto a base governista se ancora na previsibilidade e nos códigos unificados dos meios tradicionais, os eleitores de direita e os Independentes navegam em um ecossistema digital onde o ruído e a segmentação dificultam a criação de consensos mínimos sobre a realidade política.
Esse contexto impõe ainda um desafio crítico para a eleição de 2026, em especial quando observamos os hábitos dos eleitores Independentes. Embora este grupo apresente um equilíbrio entre o uso da TV e do digital, sua percepção sobre o noticiário é majoritariamente negativa, aproximando-se do humor do campo da direita.
Se a atitude política orienta a percepção do mundo, os hábitos de consumo de informação tendem a reforçar posições para a esquerda e a direita. Entre os Independente, contudo, os hábitos estão mais sobrepostos, sugerindo que há espaço para uma comunicação com menos ruído, apesar desse grupo também estar exposto a um fluxo constante de críticas digitais ao Governo.
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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


