Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia | Representação e Legitimidade Democrática | ReDem

Nesta altura da disputa eleitoral, os testes de cenário de segundo turno apresentam pouca validade para medir intenções de voto efetivas. Ainda há um longo período até o dia da votação e, nesse meio tempo, teremos uma intensa campanha oficial na televisão, no rádio e nas ruas. Será preciso ainda aguardar o resultado do primeiro turno.

Mas, dependendo de como se observam os dados, eles podem indicar tendências que vão além das intenções de voto. A pesquisa Quaest de maio, a meu ver, ajuda a iluminar um dos principais desafios do campo da direita na sucessão presidencial: como ampliar a competitividade eleitoral ainda no primeiro turno?

Os testes da Quaest para os cenários de 2º turno mostram um aumento do percentual de eleitores que afirmam votar em branco, nulo ou simplesmente não compareceriam às urnas quando o adversário de Lula não carrega o sobrenome Bolsonaro. Nos cenários, esse contingente varia de 14% em uma disputa contra Flávio Bolsonaro para 27% quando o oponente é Renan Santos.

Uma leitura apressada poderia sugerir que o eleitorado rejeita nomes novos ou demonstra resistência à renovação política. Os dados, contudo, apontam para uma realidade mais complexa.

O comportamento dos independentes

Vamos observar os dados referentes aos eleitores Independentes. Segundo a própria Quaest, eles representam hoje cerca de 32% do eleitorado brasileiro, um contingente potencialmente decisivo em uma disputa acirrada e, em tese, um eleitorado mais disponível.

Os dados mostram que esse grupo reage de forma diferente dos bolsonaristas. Enquanto os bolsonaristas tendem a se afastar mais da disputa quando Flávio Bolsonaro deixa o cenário, os Independentes parecem mais dispostos a participar.

Entre eles, a taxa de branco, nulo ou abstenção chega a 35% no cenário Lula x Flávio Bolsonaro, mas cai para níveis entre 24% e 27% quando o adversário de Lula passa a ser Zema, Caiado ou Renan Santos.

Isso sugere que uma parcela dos Independentes não está necessariamente em busca de uma candidatura mais alinhada ao bolsonarismo, mas talvez de uma alternativa que reduza o grau de polarização da disputa. Em outras palavras, para esses eleitores, a substituição de um candidato fortemente associado a um dos polos por nomes como Romeu Zema ou Ronaldo Caiado pode tornar a escolha eleitoral mais aceitável.

Essa interpretação, claro, exige cautela. Como se trata de segmentos específicos da amostra, o mais importante não são diferenças percentuais entre cenários, mas a tendência geral observada. E ela sugere menor propensão ao não voto entre os Independentes quando a disputa deixa de reproduzir diretamente o embate entre lulismo e bolsonarismo.

O ponto mais interessante é que isso não significa, necessariamente, que os independentes estão dispostos a migrar em massa para candidatos alternativos da direita. Significa apenas que parecem demonstrar menor resistência a participar da disputa quando ela não reproduz integralmente a dinâmica lulismo x bolsonarismo.

A desmobilização do eleitor bolsonarista

O fenômeno mais interessante, contudo, ocorre em outro segmento.

Como observado, eleitores identificados com o bolsonarismo apresentam um aumento significativo da disposição ao não voto quando o candidato testado deixa de ser Flávio Bolsonaro. 

Esse comportamento sugere que parte desse eleitorado não está vinculada apenas a uma agenda ideológica de direita, mas também a uma identidade política construída em torno da liderança da família Bolsonaro. A simples substituição por outro nome conservador não produz, necessariamente, transferência automática de apoio no atual contexto.

Trata-se de um resultado relevante porque indica que a capacidade de mobilização do bolsonarismo continua sendo um ativo eleitoral importante, mesmo em um cenário sem a participação direta do ex-presidente.

O dilema da direita

A combinação desses dois movimentos revela o dilema estratégico da direita.

De um lado, candidatos mais associados ao universo bolsonarista parecem preservar melhor a mobilização do eleitorado conservador mais fiel. De outro, candidaturas alternativas podem encontrar melhores condições para dialogar com o contingente de Independentes.

O desafio é que esses objetivos nem sempre caminham na mesma direção.

Uma candidatura excessivamente identificada com o bolsonarismo enfrenta dificuldades para ampliar sua base entre os Independentes. Já uma candidatura que busca se apresentar como alternativa corre o risco de reduzir o entusiasmo de parte do eleitorado bolsonarista.

Siga @redem.inct no Instagram e @redem_inct no X para saber mais sobre os estudos realizados por nossos pesquisadores!

Fábio Vasconcellos

  • Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.

Compartilhar esse conteúdo

Veja Também