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O paradoxo da reeleição: Lula tem avaliação negativa menor que Bolsonaro, mas enfrenta disputa mais acirrada em 2026

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega ao período das convenções partidárias em um cenário que, à primeira vista, parece desafiar o senso comum. Ao observarmos a taxa média de avaliação negativa do presidente entre janeiro e julho deste ano, o petista registra índices 8 pontos percentuais abaixo do patamar enfrentado por Jair Bolsonaro no primeiro semestre de 2022.

Uma primeira leitura desses dados sugeriria uma chance maior de reeleição para Lula quando comparado ao seu adversário de quatro anos atrás. No entanto, a análise das tendências da série histórica da Quaest revela um paradoxo analítico.

 

A menor desaprovação do governo não se traduz, neste momento, em uma folga eleitoral para Lula. A vantagem do atual presidente nas intenções de voto sobre o senador Flávio Bolsonaro é substancialmente menor do que a registrada em 2022 no embate entre Lula e Bolsonaro.

Atualmente, a margem que separa o presidente do seu potencial adversário oscila em uma banda estreita entre 5 e 12 pontos percentuais. No primeiro semestre de 2022, Lula registrava uma distância sobre o ex-presidente que variava de 14 a 22 pontos. Em outras palavras, no intervalo de quatro anos, a vantagem média do petista caiu pela metade, passando de 17,4 pontos percentuais (em 2022) para apenas 7,9 pontos (em 2026).

Como explicar que um governo com taxas menores de rejeição enfrente um cenário eleitoral visivelmente mais competitivo?

Talvez uma resposta possível esteja na combinação entre a descompressão da polarização eleitoral e a fragmentação das candidaturas neste momento do calendário.

Em julho de 2022, a disputa presidencial encontrava-se altamente cristalizada. Naquele contexto, apenas 24% dos eleitores estavam fora do embate eleitoral direto entre Lula e Bolsonaro: 12% declaravam voto em branco, nulo ou se diziam indecisos, e outros 12% preferiam candidatos alternativos.

O cenário em 2026 revela um quadro diferente. A parcela de eleitores fora da polarização direta (agora representada por Lula e Flávio) subiu significativamente, atingindo a marca de 32%. Desse contingente, 19% declaram que pretendem votar em branco, anular o voto ou afirmam estar indecisos.

 

O crescimento desse expressivo e silencioso grupo de eleitores sem alinhamento direto com as duas principais forças em disputa afeta a dinâmica do jogo eleitoral. Embora o governo seja menos reprovado, há uma parcela considerável de brasileiros que decidiu, por enquanto, não aderir a Lula ou a Flávio Bolsonaro, enquanto outros optam, neste momento, por candidaturas alternativas.

Em síntese, os dados demonstram que ao menos um terço do eleitorado, neste primeiro semestre de 2026, está menos inclinado a reproduzir a polarização de 2022. É justamente esse comportamento que, em tese, explica o fato de o atual presidente registrar uma avaliação negativa menor, mas conviver, paradoxalmente, com uma intenção de voto mais apertada do que no ciclo eleitoral passado.

 

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Fábio Vasconcellos

  • Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.

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