O avanço de Augusto Cury (AVANTE) nas primeiras pesquisas de intenção de voto da eleição presidencial de 2026 coincidiu no tempo com uma estratégia ofensiva nas redes sociais (Facebook e Instagram).
Embora não seja possível atribuir o crescimento das pesquisas direta ou exclusivamente aos anúncios digitais, o levantamento nos primeiros dias do período oficial de campanha (16 de agosto a 1º de setembro) revela que Cury concentrou sua campanha digital exatamente sobre os dois principais redutos eleitorais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: o Nordeste e o eleitorado feminino.
Mais da metade de todo o alcance de Cury foi canalizado para o Nordeste (55,9%), com presença mais alta em estados como Bahia (11,8%), Ceará (10,1%) e Pernambuco (8,3%), e 53,0% do seu público alcançado foi composto por mulheres.
Ao explorar vídeos de apelo socioemocional e pregar a pacificação nacional, Cury entrou em territórios onde os demais candidatos de direita sequer colocaram recursos, desafiando a hegemonia petista na região.
Outro dado que chama a atenção: os anúncios do candidato do Avante tiveram uma concentração de alcance de 37% entre os eleitores de até 24 anos. Essa proporção é mais que o dobro do registrado pelos demais candidatos.
Total de anúncios e alcance
No período analisado (16 de agosto a 1º de setembro), os candidatos impulsionaram 356 anúncios, somando 39,56 milhões de impactos únicos acumulados (total de pessoas alcançadas por cada campanha). Quem mais produziu anúncios foi Ronaldo Caiado (PSD), com 218 peças, seguido por Augusto Cury (88), Romeu Zema (NOVO), com 40 e Lula, com apenas 10. Flávio Bolsonaro (PL) e Renan Santos (MISSÃO) não impulsionaram anúncios no período da coleta dos dados.
O cruzamento entre o volume investido e o alcance obtido mostra que o candidato do Avante foi o mais eficiente na compra de mídia digital. Com o menor orçamento entre os que impulsionaram (R$ 48,9 mil), Cury registrou o maior alcance no período, atingindo 15,39 milhões de pessoas únicas. Em contrapartida, a campanha de Lula desembolsou R$ 56,7 mil, mas concentrou o valor em apenas dez anúncios, com alcance total de 2,84 milhões de eleitores.

Segmentação dos públicos
A segmentação demográfica expõe estratégias distintas de conquista de público. De um lado, estão Lula (57,9% de eleitoras) e Augusto Cury (53,0%), com o alcance mais concentrado entre as mulheres. No extremo oposto, Romeu Zema (64,9% de eleitores) e Ronaldo Caiado (56,7%) registraram uma entrega predominantemente masculina.

No recorte etário, Augusto Cury mobilizou a atenção dos mais jovens (68,7% abaixo de 35 anos, sendo 37,3% apenas entre 18 e 24 anos). Por outro lado, Ronaldo Caiado registrou o perfil mais maduro (45,9% acima de 45 anos e 16,5% com 65 anos ou mais). Lula e Romeu Zema tiveram o alcance concentrado na população adulta entre 25 e 54 anos.

Distribuição regional
A análise territorial evidencia uma profunda fragmentação do país entre os candidatos. O Nordeste, tradicional reduto eleitoral petista, recebeu 55,89% de todo o alcance de Augusto Cury e 36,98% do alcance de Lula, enquanto Zema e Caiado não registraram veiculações na região (0%).
No Sudeste, Zema direcionou 99,8% de sua campanha a MG e SP, enquanto Caiado apostou no corredor Centro-Sul (54,0% no Sudeste, 25,8% no Sul e 20,2% no Centro-Oeste). Apenas a campanha de Lula manteve entrega balanceada em todas as cinco macrorregiões brasileiras.

Nota: Os percentuais de idade, gênero e localização apresentados nesta análise refletem o público que efetivamente visualizou as peças, conforme os dados oficiais da Meta. Não é possível afirmar se essa concentração decorreu de filtros restritivos definidos manualmente pelas campanhas no momento da contratação ou se foi orientada pelo próprio algoritmo da plataforma. Os números, portanto, expressam uma combinação entre o formato da mensagem do candidato, o interesse dos eleitores e a dinâmica de entrega da rede social.
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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


