Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia | Representação e Legitimidade Democrática | ReDem

Brasil tem mil cidades pêndulo que vão decidir a eleição de 2026

Há um grupo de 1.091 cidades no Brasil que têm não candidato preferido. Em 2002, elegeram Lula. Em 2006, votaram em Alckmin ou Serra. Depois voltaram ao PT. Depois foram para Bolsonaro.

Os chamados municípios pêndulos reúnem, nesta eleição, mais de 34 milhões de eleitores aptos a votar. A tendência dessas cidades de balançar à esquerda ou à direta ao londo de duas décadas poderá ser decisiva em uma disputa presidencial acirrada, como as pesquisas de opinião sugerem.

Para identificar essas cidades, cruzamos os resultados dos seis segundos turnos presidenciais realizados entre 2002 e 2022 com o cadastro oficial de eleitores do TSE para 2026, mapeando os 5.563 municípios que participaram de todas as disputas. A conclusão é que o Brasil tem três blocos territoriais, dois deles estáveis e um volátil. O bloco volátil das cidades pêndulo carrega peso eleitoral que definir um pleito.

O que é uma cidade pêndulo

Um município pêndulo, na linguagem da ciência política, é aquele que não se alinha de forma estável a nenhuma das forças políticas em disputa. A classificação adotada aqui considera o grupo de cidades que trocaram o partido vencedor no segundo turno duas ou mais vezes ao longo dos 20 anos.

Dos 1.091 municípios identificados, 642 viraram de lado duas vezes, 384 viraram três vezes, 59 viraram quatro vezes e apenas 6 cidades no país trocaram de lado em absolutamente todos os intervalos eleitorais, isto é, em cada eleição o vencedor foi diferente do anterior. Entre elas estão Porto Walter (AC), Cambuci (RJ) e São José do Norte (RS), municípios de perfis e regiões distintos que têm em comum a ausência de lealdade política estável.

O peso dos que nunca mudam

Fora do bloco pêndulo, a análise identificou dois grupos opostos e igualmente reveladores. O primeiro é o das cidades que votaram no PT nos seis segundos turnos sem nenhuma exceção. São 1.489 municípios concentrados sobretudo no Nordeste, com 33,7 milhões de eleitores (21,3% do total nacional).

O segundo grupo é o das cidades que votaram na direita/oposição nas seis eleições consecutivas: 546 municípios, em grande parte localizados no interior do Sul e do Centro-Oeste, reunindo 8,2 milhões de eleitores (5,2% do eleitorado).

Existe ainda uma faixa intermediária: 1.409 municípios com dominância do PT (vitória em 4 ou 5 turnos, com uma oscilação) e 1.028 com dominância da direita (vitória em 3 a 5 turnos, com até uma oscilação). Este segundo grupo é o mais populoso. São 47,5 milhões de eleitores, ou 30% do eleitorado nacional. São cidades que tendem à direita, mas que já preferiram um candidato do PT nos segundos turnos analisados.

A taxa de mudança caiu (mas não acabou)

Um dado que passa despercebido nas análises eleitorais tradicionais é a velocidade com que os municípios trocam de partido vencedor vem caindo ao longo do tempo.

Na transição de 2002 para 2006, mais de 2,2 mil cidades viraram o resultado do segundo turno. A taxa de pêndulo municipal foi de 40,4%. Nas eleições seguintes, entre 2006 e 2010, ela caiu para 14,8%. Permaneceu nessa faixa até 2018. Na última transição, de 2018 para 2022, apenas 423 municípios mudaram de lado (7,6%).

O que isso indica? Que o eleitorado municipal está se fixando. As bacias eleitorais se tornaram menos fluidas. O que não significa que a eleição está decidida antes de começar. No 1.091 municípios pêndulo votam 34 milhões de eleitores. A volatilidade diminuiu, mas o volume que ela movimenta continua sendo determinante.

Por que 2026 passa por essas cidades

Com o eleitorado nacional estimado em 157,8 milhões de pessoas para 2026, os municípios pêndulo concentram 21,6% do total. É o terceiro maior bloco por eleitorado, maior do que o das cidades hegemônicas do PT e muito maior do que o das cidades hegemônicas da direita.

Na configuração geográfica dos votos, menhuma candidatura vence apenas com suas bases consolidadas. Os municípios pêndulo são, por definição, aqueles onde a eleição ainda está em disputa. Ou seja, uma campanha que pretenda chegar ao segundo turno em posição competitiva precisa de uma estratégia para este grupo, e os dados mostram que ele é geograficamente disperso, mas com maior peso (contingente eleitoral) em municípios dos estados de São Paulo, seguido por Rio Grande do Sul e Minas Gerais.

Siga @redem.inct no Instagram e @redem_inct no X para saber mais sobre os estudos realizados por nossos pesquisadores!

Fábio Vasconcellos

  • Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.

Compartilhar esse conteúdo

Veja Também