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Abstenção não explica perda de votos de Lula no 1º turno

Logo após a apuração do primeiro turno da eleição presidencial de 2026, algumas análises sugeriram que o recuo na votação de Luiz Inácio Lula da Silva em relação a 2022 teria sido provocado pelo aumento da abstenção. A hipótese sustentava que o eleitor governista teria simplesmente deixado de comparecer às urnas. No entanto, uma análise baseada nos microdados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) demonstra que não há evidências que confirmem essa hipótese.

O acompanhamento da mesma urna entre os dois pleitos revela que Lula perdeu fôlego eleitoral mesmo nos locais onde o comparecimento aumentou, enquanto Flávio Bolsonaro avançou de maneira uniforme em todas as faixas de presença do eleitorado.

Para testar essa hipótese, o levantamento isolou as seções eleitorais idênticas do país e comparou o desempenho dos candidatos sob duas condições opostas: onde o eleitor faltou menos e onde faltou mais. Se a abstenção fosse a causa determinante do resultado, Lula deveria ter mantido ou ampliado sua fatia de votos válidos nas urnas que registraram queda expressiva de ausências.

O que os dados mostram é o contrário. Tanto no Nordeste quanto na média brasileira, a variação dos votos válidos seguiu um padrão estável e independente do volume de ausências, indicando que a dinâmica eleitoral decorreu de mudança de preferência do eleitor que foi votar, e não de desmobilização nas seções.

O mapa do comparecimento pelo país

A distribuição territorial da abstenção do primeiro turno vai contra a percepção de que houve um esvaziamento atípico nos redutos históricos do petismo. No saldo geral do país, a taxa de abstenção oscilou de 20,95% em 2022 para 21,08% em 2026, uma variação de apenas 0,14 ponto percentual. Contudo, essa aparente estabilidade esconde movimentos regionais divergentes.

Ao contrário da hipótese inicial, o Nordeste registrou redução média de 1,14 ponto percentual na abstenção, e o Norte teve queda de 1,51 ponto percentual. Estados como Maranhão (–2,5 pp), Pará (–2,1 pp), Acre (–2,0 pp) e Ceará (–1,9 pp) tiveram mais eleitores presentes na cabine de votação do que há quatro anos.

 

 

Em sentido oposto, o aumento da abstenção concentrou-se no Sul (+1,12 pp) e no Sudeste (+0,75 pp), com destaques para Mato Grosso do Sul (+1,8 pp), Rio Grande do Sul (+1,6 pp), Paraná (+1,1 pp) e São Paulo (+0,9 pp). Portanto, o eleitor do Norte e do Nordeste compareceu em maior proporção em 2026 do que em 2022.

O teste da mesma urna: prova e contraprova

Com os dados da abstenção em mais de 460 mil seções eleitorais, testamos a relação com a votação do 1º turno em 2026 comparado com 2022. De maneira geral, Lula recuou em pontos percentuais tanto nas seções em que houve queda da abstenção quanto naquelas em que houve aumento da abstenção. Nas seções onde a abstenção ficou praticamente estável, Lula também apresentou queda na mesma magnitude dos dois primeiros grupos.

 

 

Em tese, para que a abstenção tivesse um efeito determinante para Lula, seria necessário que a perda média da sua votação apresentasse diferença significativa entre esses grupos. Realizamos diversos testes estatísticos e, em nenhum deles, esse efeito apresentou significância.

No Nordeste, onde Lula é sempre muito bem votado, isolamos o contingente de 59.764 seções onde a abstenção caiu com força (queda média de –4,7 pontos percentuais). Nesse grupo, Lula registrou uma perda média de 3,42 pontos percentuais de votos válidos na comparação com 2022. Na mesma amostra de urnas, Flávio Bolsonaro cresceu 4,48 pontos percentuais.

Para validar se esse recuo tinha ligação com a abstenção, realizamos uma contraprova em 41.930 seções nordestinas onde a abstenção subiu (alta média de +3,2 pontos percentuais). O comportamento foi praticamente o mesmo: Lula caiu 2,92 pontos percentuais e Flávio Bolsonaro subiu 3,63 pontos percentuais.

 

 

A mesma dinâmica se repete no consolidado nacional, que abrange mais de 360 mil seções pareadas em todo o território. Nas 164.009 urnas do país onde o comparecimento aumentou, a perda de Lula foi de 3,83 pontos percentuais, e o ganho do candidato do PL foi de 4,36 pontos percentuais.

Já nas 198.646 urnas onde a abstenção cresceu, Lula recuou 3,56 pontos percentuais, e seu oponente subiu 4,12 pontos percentuais. A variação do resultado final entre os dois extremos é inferior a meio ponto percentual, o que estatisticamente evidencia que a taxa de comparecimento não alterou a direção nem o ritmo do resultado eleitoral.

Migração de voto real, não desmobilização

A aparente associação entre abstenção e votação de Lula decorre de um equívoco de interpretação estatística. Do ponto de vista sociodemográfico, áreas de menor renda e menor escolaridade costumam registrar, simultaneamente, maior votação histórica no Partido dos Trabalhadores e níveis estruturais mais altos de abstenção. Trata-se, contudo, de uma correlação de perfil social, e não de uma relação de causa e efeito imediata. O fato de uma região ter mais ausências não significa que foram essas faltas que drenaram o percentual do candidato.

Ao neutralizar essa distorção por meio da comparação seção por seção, os dados sugerem que a oscilação entre os dois primeiros colocados foi fruto de migração direta de preferências entre os cidadãos que efetivamente depositaram seus votos.

O presidente da República não perdeu percentual porque seu eleitorado ficou em casa no primeiro turno de 2026; perdeu porque eleitores que compareceram optaram pelo voto em Flávio Bolsonaro ou em candidatos da Terceira Via.

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Fábio Vasconcellos

  • Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.

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