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A inclinação de Minas: o avanço da direita desde 2002 e a resiliência de Lula

Com as pesquisas indicando um acirramento da disputa pelo Palácio do Planalto, os olhares se voltam agora para os detalhes. Onde e como Lula e Flávio Bolsonaro poderão obter os votos mínimos, mas necessários, para vencer a eleição?

Com o segundo maior colégio eleitoral do país (cerca de 16,4 milhões de eleitores aptos), Minas Gerais terá mais uma vez um papel decisivo. A série histórica dos resultados de 2º Turno no estado mostra uma tendência estrutural a favor do campo da direita, embora fatores conjunturais possam modular essa vantagem.

Menos votos para o campo da esquerda

No gráfico abaixo, temos os resultados de segundo turno e  diferença em pontos percentuais entre o primeiro e o segundo colocado no Brasil e em Minas Gerais. Repare que Minas segue de perto a tendência nacional, com as curvas fortemente associadas. Mas há um detalhe crucial para além da sincronia das curvas.

O saldo de votos dos candidatos do PT em Minas, quando comparado à média nacional, encurtou de forma contínua entre 2002 e 2022. Minas tem se posicionado mais à direita nesse período. Esse comportamento ficou explícito em 2022, quando a vantagem de Lula sobre Jair Bolsonaro em Minas Gerais foi significativamente menor do que a vantagem nacional do petista.

Entre 2002 e 2006, Minas Gerais apresentava um comportamento “hiper-lulista”, com a margem pró-Lula no estado superando a média do país entre 8 a 10 pontos percentuais. Em 2010, com Dilma Rousseff, esse saldo em relação ao Brasil recuou para 4,8 pontos percentuais.

Menor diferença ocorreu em 2022

Na reeleição de Dilma, em 2014, tendo o ex-governador Aécio Neves (PSDB) como adversário, a vantagem petista no comparativo com a distribuição nacional voltou a encolher, registrando apenas 1,5 ponto percentual.

Na disputa de 2018, Minas Gerais exibiu forte inclinação conservadora e tornou-se “hiper-bolsonarista”, ampliando a vitória de Jair Bolsonaro com uma margem 6,1 pontos percentuais acima da média brasileira.

Em 2022, na disputa entre Lula e Bolsonaro, Minas confirmou a vitória do petista, mas por uma margem mínima de 0,4 ponto percentual (diferença de apenas 49 mil votos). Ao contrário do Brasil, onde a vantagem de Lula foi de 1,8 ponto percentual, o eleitorado mineiro votou, em termos relativos, à direita da média nacional.

Inversamente, se a tendência à direita se consolidou, ela não foi tão ampla como em 2018. Lula parece ser o único candidato de esquerda com alguma capacidade de mobilização de votos em Minas.

O fator Lula e o peso dos candidatos ao governo

Há outro fator importante. Em 2018 e 2022, Romeu Zema (Novo) venceu as eleições estaduais e trabalhou intensamente para mobilizar prefeitos e eleitores no segundo turno de 2022.

Desta vez, o governador Mateus Simões (PSD), que assumiu após a renúncia de Zema, ainda tem baixo desempenho nas pesquisas (na casa de 6%). Se não passar para o segundo turno, precisamos saber se ele colocará a máquina estadual para trabalhar, e a favor de qual candidato.

Hoje o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos)  aparece na liderança das intenções de voto para o governo estadual com cerca de 37%. É provável que, em um eventual segundo turno, ele atraia o voto bolsonarista no estado e consolide o palanque de Flávio.

Esse quadro sugere uma vantagem competitiva real para o campo da direita em Minas Gerais, elevando a probabilidade de vitória de Flávio Bolsonaro no estado em um cenário de segundo turno. Mas ele revela também que, a despeito dessa vantagem da direita, Lula apresenta um maior fôlego competitivo no Estado.

Para onde vai Minas?

A dúvida central é se a vantagem estrutural da direita será robusta o suficiente para abrir uma margem sobre Lula ou se o presidente, ancorado nos expressivos índices do Norte de Minas e dos Vales, conseguirá reproduzir a resistência de 2022. Hoje as pesquisas de opinião projetam um segundo turno em empate técnico entre Flavio e Lula.

É por essa razão que tenho chamado atenção para a possibilidade real de um possível e inédito desacoplamento de Minas e do Brasil. Em uma eleição nacional extremamente apertada, decidida por frações de pontos percentuais, não surpreenderá se, pela primeira vez, o vencedor em Minas Gerais não for o candidato eleito presidente do Brasil (ou vice-versa).

Pelas pesquisas, esse quadro está indefinido; pelos dados das votações, há vantagem para o campo da direita. Mas, como sabemos, a inércia eleitoral não é, necessariamente, determinismo histórico. No meio do caminho, tem uma campanha eleitoral.

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Fábio Vasconcellos

  • Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.

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