Acaba de ser lançada pela Editora Lutas Anticapital a coletânea “Elites, Classe e Estado: Estudos Contemporâneos de Sociologia Política Marxista”, que tem como intuito apresentar ao leitor brasileiro traduções inéditas de textos do século XXI para adereçar o seguinte desafio: como analisar, empiricamente, as relações entre os agentes de Estado e a burguesia?
No primeiro momento, a obra se volta ao exame teórico dos problemas inerentes à relação entre os agentes de Estado e a burguesia, passando pelas contribuições de Ralph Miliband, Nicos Poulantzas, Leo Panitch, Charles Wright Mills e James O’Connor, além das formulações de Marx e Engels sobre a questão. No segundo, aos estudos empíricos que colocam essas ferramentas teóricas em movimento.
Para aprofundarmos mais na temática geral do livro e suas nuances, entrevistamos o pesquisador do INCT ReDem e organizador da obra, Mateus de Albuquerque. Confira, abaixo, perguntas e respostas que embasam a leitura.
O que motivou reunir justamente textos do século XXI sobre um debate que muitos associam aos anos 1960-70? O que há de novo na sociologia política marxista contemporânea que justificava essa coletânea agora?
A crise de 2008 levou a um revival do marxismo ao redor do planeta. De uma tradição caricaturizada pela ciência política hegemônica, muitas vezes sem sequer ler Marx, o marxismo tornou a ser visto como uma abordagem relevante para explicar fenômenos como o crescimento das aplicações financeiras, o avanço sobre as regulações trabalhistas, entre outras agendas.
Isso levou a alguns pesquisadores tentarem “superar o gap” de décadas sem diálogo entre os avanços metodológicos da Ciência Política e a teoria marxista. No Brasil, o livro “Marxismo como Ciência Social” de Adriano Codato e Renato Perissinotto, é um exemplo disso.
Com essa coletânea, pretendemos trazer ao leitor brasileiro gente de fora que estava pensando nisso.
Por que essa lacuna no leitor brasileiro? O que faz com que esses textos ainda fossem inéditos em português, e o que se perde quando essa tradição chega ao Brasil de forma fragmentada?
Acredito que o pouco conhecimento sobre esses autores passa por certo desinteresse mútuo entre a ciência política e o marxismo. Sem traduções e, principalmente, sem a tentativa de dar alguma coesão a eles, o jovem pesquisador marxista brasileiro fica, muitas vezes, sem “horizonte de fuga”, sem um cardápio maior de alternativas para pensar suas análises.
Como foi o critério de seleção: Por que esses autores e não outros? Que nomes ou correntes ficaram de fora e você gostaria de ter incluído?
O fio condutor da coletânea é Ralph Miliband. Acredito que Miliband é pouco lido no Brasil, muitas vezes resumido às suas intrigantes polêmicas com Poulantzas. Mas Miliband “floresceu” lá fora (especialmente no mundo anglo-saxão) com muita coisa interessante. Por isso, a estrutura do livro passa por autores que, de alguma maneira, tentam pensar Miliband teoricamente, para depois partirmos para a aplicação.
Textos que derivam da tradição de Claus Offe e mesmo trabalhos de Leo Panitch, que foi orientado por Miliband, cairiam bem.
A tensão entre Miliband e Poulantzas — o Estado como instrumento da classe dominante versus a autonomia relativa do Estado — estrutura boa parte dessa tradição. Esse debate ainda está em aberto, ou a coletânea aponta para alguma superação dele?
Ainda está em aberto, embora, como aponta Bob Jessop, em alguns momentos vira um “diálogo entre surdos”. O texto de Maher e Aquanno e o de Babic et al. propõem formas de superar tudo isso.
Como Panitch, Mills e O’Connor se encaixam nesse mapa? Mills, em particular, não é exatamente marxista — o que a teoria das elites acrescenta ou tensiona nessa discussão?
Esse foi um dos elementos de “descoberta” desta pesquisa, o fato de que Mills se reconciliou com o marxismo e praticamente não se fala disso no Brasil. Elitismo e marxismo possuem uma relação perniciosa e acidentada que precisa ser melhor explorada. Certamente a tradição que estamos abordando no livro em muito deriva dessa fricção.
Panitch foi orientado por Miliband e é parte da semente plantada por ele no mundo anglo saxão. Uma potente tradição da Ciência Política canadense passa por ele.
O’Connor nos apresenta caminhos muito instigantes para pensar a financeirização e seus impactos políticos.
Marx e Engels nunca formularam uma teoria sistemática do Estado. Até que ponto isso é um problema a ser resolvido e até que ponto é uma abertura produtiva para a tradição?
Nunca formularam, mas estavam preocupados com ele. Não só pelo tão falado texto que Marx estaria almejando escrever sobre o Estado, mas também pelo nascimento de sua ruptura com Hegel, orientada para a determinação das contradições entre Estado e Sociedade.
Uma teoria marxista sobre o Estado sempre estará de olhos muito abertos para a sociedade, do contrário será uma teoria estadocêntrica, idólatra dos processos de Estado, como se esses não fossem pautados pelos conflitos sociais.
Por isso apostamos em uma abordagem que olhe para o Estado a partir de suas relações com a sociedade. Isso envolve desmistificar seus processos. Acho que esse é um caminho fértil.
A coletânea insiste em “não construir muros entre empiria e teoria”. Na prática, por que essa separação se consolidou, e o que é preciso para superá-la de fato — e não só no discurso?
Acredito que haja, muitas vezes, um processo retroalimentativo entre marxistas e a ciência política empírica e hegemônica. Cientistas políticos tendem a ignorar as hipóteses potentes que existem no marxismo e não dialogam com a sua maneira de ver o mundo. Muitas vezes, tratam o marxismo como uma caricatura. Muitos marxistas – não todos -, por outro lado, dedicam-se apenas à chamada “ciência negativa”, a crítica da ciência hegemônica e seus pressupostos, sem muito empenho na produção positiva de conhecimento. Esse fosso entre eles impede diálogos importantes.
Os estudos empíricos da segunda parte: que tipo de perguntas eles conseguem responder que a teoria sozinha não alcança? Há algum achado que tenha surpreendido você como organizador?
Acredito que eles contribuem para a construção de modelos de análise que tentem, ao máximo, contemplar todas as múltiplas determinações da relação Estado e classe, enriquecendo a reflexão teórica.
Na minha opinião, o trabalho de Babic et al, sobre o caso Unilever, é muito paradigmático por ser um desenho de estudo de caso que contempla múltiplas variáveis. O achado deles da forma como a burguesia pode perder mesmo em condições muito favoráveis tensiona bastante as conclusões apressadas que veem em derrotas do empresariado uma contraprova do marxismo.
A proposta é uma crítica que não recuse as ferramentas da disciplina — o instrumental estatístico, qualitativo e computacional. Isso é uma reconciliação difícil: historicamente, a teoria marxista do Estado e a ciência política mainstream se olharam com desconfiança. Como você vê essa aproximação sem que uma dilua a outra?
O primeiro capítulo do livro é uma tentativa, um rascunho de tentativa, de suprir essa questão. Eu acredito que marxistas não devem abandonar de forma alguma a crítica ao Estado, o fato de que a constituição histórica do aparelho estatal é funcional à burguesia ao atomizar os sujeitos de classe na forma de “cidadãos” e ao legitimar a propriedade privada.
Ao mesmo tempo, isso deve ser conciliado com o que chamo de Sociologia Política Marxista, a demonstração empirica de como estão se dando as lutas dentro (ou ao redor) do aparelho de Estado. Nessa agenda entram, por exemplo, os estudos com movimentos sociais e sindicais, surveys, entrevistas em profundidade, grupos focais com os que lutam.
Mas também entram estudos de elites, não com o objetivo de negar o elo entre classe e Estado – que está dado estruturalmente na formação do Estado – mas de qualificar quais mecanismos setores burgueses aplicam para maximizar seus ganhos através do Estado. É nesse ponto que o ferramental da ciência politica hegemônica é útil.
Que perguntas de pesquisa sobre a democracia brasileira hoje — financiamento, elites, captura do Estado, desigualdade de representação — essa abordagem ilumina melhor do que as ferramentas convencionais?
Os estudos em elites já possuem uma tradição de ir do indivíduo ao grupo. O ato de prosopografar é a construção da biografia de um indivíduo que será acrescida à biografia de vários outros indivíduos a fim de formar um perfil de grupo.
Então temos que pensar em como “cercar” as elites políticas e estatais a fim de conectá-las a redes maiores de interesses. Financiamento de campanha, lobby, análise de seu discurso, análise de seu comportamento (do que é decidido por elas) e a análise de quem são eles propriamente dito, no caso, quem são os burgueses dentro do aparelho de Estado, tarefa que eu tenho me dedicado no Observatório de Elites Políticas e Sociais do Brasil em uma pesquisa coordenada por mim e por Pedro Bergamaschi que conta com apoio do INCT ReDem.


