O segundo turno da eleição presidencial de 2026 colocou em disputa um contingente extra de cerca de 14,1 milhões de votos em relação à etapa inicial. Foram eleitores que haviam escolhido candidatos da chamada Terceira Via no primeiro turno ou que migraram da abstenção e do voto em branco e nulo nesta segunda fase da campanha.
Entre os dois turnos, a abstenções reduziram de 21,08% para 19,22%, enquanto os votos brancos recuaram de 2,12% para 1,84%, comportamento semelhante dos votos nulos que registraram 2,12% contra 2,93% da primeira fase da disputa.
Com a apuração do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sabemos agora que 73,6% dos 14 milhões de votos adicionais optaram por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enquanto 26,4% foram com Flávio Bolsonaro (PL). Essa divisão assimétrica permitiu ao petista reverter a desvantagem da etapa inicial e vencer o pleito por uma margem de mais de 4,4 milhões de votos.
Para compreender as engrenagens da virada promovida pela candidatura de Lula, analisamos os dados de 499 mil seções eleitorais do país, mapeando a dinâmica de votos e do comparecimento.
Queda da abstenção favoreceu mais Lula
A redução da abstenção levou quase 3 milhões de eleitores a mais às urnas no segundo turno, gerando reflexos imediatos sobre a votação de ambos os concorrentes — mas com vantagem para Lula.
Ao projetar lado a lado a variação da abstenção de cada seção e o desempenho dos candidatos em relação ao total de eleitores aptos, notamos que, onde o comparecimento às urnas aumentou, a votação de ambos também cresceu.

Para medir essa relação, estimamos um modelo econométrico sobre todas as seções eleitorais do país. Como a análise observa dados agregados de seções (e não escolhas individuais rastreadas), estamos lidando exclusivamente com taxas gerais de resposta local.
Pelos resultados, a redução de 1 ponto percentual na taxa de abstenção esteve associada a um avanço médio de cerca de 0,60 ponto percentual na votação de Lula sobre o eleitorado apto da seção, contra um incremento entre 0,38 e 0,44 ponto percentual para Flávio Bolsonaro.
A absorção dessa mobilização gerou para a campanha petista cerca de 1,8 milhão de novos votos, contra 1,2 milhão para o adversário do PL — um saldo líquido favorável a Lula de aproximadamente 600 mil votos.


Comparecimento x Terceira Via
Como em cada seção eleitoral existiam também eleitores que haviam votado em outros concorrentes no primeiro turno, aplicamos um teste de controle: dividimos as 499 mil seções em três blocos (baixa, média e alta taxa de votação da Terceira Via no 1º turno). O objetivo era falsear a hipótese alternativa: o ganho de Lula teria sido apenas o espólio da Terceira Via, ou a abstenção desempenhou papel próprio?
Os dados mostram que as curvas de desempenho de Lula e Flávio se mantêm declinantes à medida que a abstenção sobe, em qualquer um dos três estratos. Nas seções onde os novos votantes compareceram em peso (queda acentuada de abstenção), ambos aceleram, mas a inclinação de Lula é sistematicamente superior à de Flávio.
O comparecimento beneficiou o petista em maior proporção, independentemente de haver um contingente alto, médio ou residual de eleitores da Terceira Via no local.

Brancos e nulos: o monopólio da migração
Ao repetir esse mesmo procedimento para a variação dos votos brancos e nulos, os dados revelam um padrão estruturalmente oposto. Enquanto no caso da abstenção ambos os candidatos se movimentavam na mesma direção, nos brancos e nulos as trajetórias se dissociam.
A curva de Flávio Bolsonaro apresenta estabilidade quase (praticamente plana em todos os cenários), mostrando pouca variação desse eleitorado. Já a curva de Lula exibe forte inclinação negativa: nas seções onde os votos brancos e nulos mais encolheram, Lula registrou seus maiores saltos de votação.
Esse comportamento sugere que a desidratação do voto nulo e branco no segundo turno operou como um canal de absorção praticamente exclusivo para a candidatura de Lula.

Terceira Via: o maior volume, mas não o motor exclusivo da virada
E como se distribuíram os votos da Terceira Via? Pelo resultado eleitoral, sabemos hoje que a maioria migrou para Lula. Eram mais de 9 milhões de votos que, na hipótese de migrarem em peso para Flávio Bolsonaro, teriam imposto uma derrota ao petista.
Pelo balanço final das urnas, é possível afirmar que Lula absorveu cerca de três em cada quatro votos da Terceira Via, abrindo uma dianteira direta de aproximadamente 4,6 milhões de votos sobre Flávio Bolsonaro. No entanto, a análise das 499 mil seções eleitorais demonstra que essa migração não operou de forma isolada, desmentindo a tese de que a Terceira Via teria sido a única força motriz da virada.
No terço das seções em que a presença da Terceira Via era residual, somando uma média de apenas 3,0% do eleitorado apto, o crescimento de Lula no segundo turno alcançou uma média de 5,1 pontos percentuais sobre o total de aptos, enquanto Flávio avançou apenas 0,7 ponto percentual.
Uma vez que o potencial máximo da Terceira Via nessas urnas não passava de 3,0 pontos, mesmo que a totalidade absoluta desses eleitores tivesse migrado em bloco para a candidatura do PT, esse contingente ainda seria matematicamente insuficiente para gerar os 5,1 pontos de expansão registrados por Lula. A expressiva dianteira petista nesses locais decorreu, portanto, da participação de eleitores que haviam se abstido ou votado em branco e nulo semanas antes.
Por outro lado, nas seções em que a Terceira Via registrou forte densidade no primeiro turno, alcançando em média 8,8% do eleitorado apto, o ritmo de crescimento de ambos os concorrentes acelerou: Lula avançou 7,5 pontos percentuais e Flávio atingiu 3,9 pontos percentuais sobre os aptos. Nesses colégios eleitorais, o candidato do PL conseguiu capturar fatias relevantes do eleitorado de centro, contendo o avanço da vantagem petista.
Esse contraste revela que a virada de 2026 dependeu de dois motores principais que se articularam mutuamente. Enquanto a Terceira Via forneceu uma massa eleitoral para Lula construir a sua dianteira final de 4,4 milhões de votos, a queda da abstenção e a redução dos votos brancos e nulos geraram a margem necessária para liquidar a desvantagem de 2,2 milhões de votos herdada do primeiro turno. Sem qualquer uma dessas duas engrenagens, o resultado final das urnas teria sido inviabilizado.
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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


