Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia | Representação e Legitimidade Democrática | ReDem

O mapa do voto em SP: Como o domínio no interior blinda Tarcísio, isola o PT e aumenta o peso das cidades-pêndulo

Estado decisivo nas eleições presidenciais recentes, São Paulo representa hoje, talvez, o maior desafio político para o PT. Para ser reeleito, o presidente Lula precisa repetir o bom desempenho nos estados do Norte e Nordeste, e limitar a expansão do campo da direita em SP.

Como parte dessa estratégia, Lula lançou o ex-ministro, Fernando Haddad, como candidato ao governo de São Paulo para uma disputa que, até aqui, tem se mostrado duríssima para o PT. O atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) lidera todas as pesquisas, com ampla margem à frente de Haddad.

A cisão do estado de SP entre direita e esquerda

Existem algumas pistas sobre as dificuldades do PT em São Paulo e elas estão na geografia do voto no Estado. Quando examinamos os resultados dos 2º turnos das eleições presidenciais nos 645 municípios do SP, encontramos uma divisão clara das forças eleitorais,

Enquanto o campo da direita consolidou hegemonia (vence sempre) ou dominância (vence na maioria das vezes) em 480 cidades paulistas (74,4% dos municípios, com 19,72 milhões de eleitores), o PT sofreu um processo contínuo de perda de espaço político entre 2002 e 2022.

O partido tem hoje hegemonia ou dominância em apenas 20 pequenos municípios (3,1% do estado), que somam 415,5 mil eleitores (1,22% do eleitorado de SP).

 

 

Essa distribuição, no entanto, precisa ser lida com outro conjunto de dados. Em São Paulo existem 145 cidades-pêndulo, isto é, municípios em que os eleitores mudaram a preferência entre esquerda e direita nos últimos 20 anos. Nessas cidades, as disputas presidenciais tendem a ser mais acirradas e foi de onde, em 2022, vieram os votos que ajudaram a eleger Lula.

 

 

Esse grupo de cidades apresenta uma distribuição assimétrica. Dezoito delas estão na Região Metropolitana. Além da capital (9,13 milhões de eleitores), estão São Bernardo do Campo (626 mil), Osasco (583 mil), Diadema (330 mil) e Mauá (310 mil). Essas 18 cidades-pêndulo somam 12,85 milhões de eleitores e podem ser decisivas em eleições competitivas. Não é o caso da eleição para o Governo de São Paulo, mas é o caso para a disputa presidencial.

O peso das cidades pêndulo na disputa pelo Governo de SP

Para vencer o governo de SP, Haddad enfrenta o seguinte dilema. Como tem poucas chances de avançar no interior, onde a direita já é dominante, e considerando a margem histórica de desvantagem nessa região, ele teria que vencer com cerca de 66% dos votos nas cidades-pêndulo.

O dado histórico é que o PT, embora tenha sido o preferido algumas vezes nessas cidades, nunca alcançou esse percentual.

Se não pode alcançar o que, historicamente, nunca foi possível, Haddad terá então que construir uma estratégia para reduzir um pouco a derrota no interior e vencer novamente nas cidades-pêndulo, mas, no caso, com uma margem superior ao registrado em 2022 (53,8%).

Em resumo, a grande diferença de votos alcançada pela direita no interior de São Paulo limita o efeito das cidades-pêndulo para equilibrar o jogo na disputa estadual. Nessas 18 cidades, Tarcísio não precisa vencer, precisa apenas não deixar Haddad abrir frente.

As cidades pêndulo de SP na disputa presidencial

No caso da disputa presidencial, a situação é ainda mais desafiante. Sempre que uma eleição é mais competitiva, com diferenças mínimas entre os dois principais candidatos, o peso das cidades-pêndulo, logicamente, aumenta na definição do pleito.

Exemplo. Se Lula tivesse repetido o desempenho do PT de 2018 nas 18 cidades-pêndulo de São Paulo, Bolsonaro teria sido reeleito com mais de 400 mil votos de frente. A estratégia bem-sucedida do PT levou os municípios-pêndulo a migrarem da direita para a esquerda em 2022, dando uma soma de votos necessária para a eleição de Lula.

Ao que tudo indica, a disputa presidencial deste ano, considerando o cenário de segundo turno, também apresenta um nível de competitividade semelhante a 2022. A dúvida é se Lula/PT continuará sendo o preferido nas cidades-pêndulo, ou se esse grupo inclinará, mais uma vez, para a direita.

Enquanto na disputa presidencial isso poderá decidir a disputa, na eleição para o governo do Estado, não bastará Haddad vencer; precisará de uma vitória acachapante, cenário que nunca aconteceu desde 2002.

Siga @redem.inct no Instagram e @redem_inct no X para saber mais sobre os estudos realizados por nossos pesquisadores!

Fábio Vasconcellos

  • Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.

Compartilhar esse conteúdo

Veja Também