No contexto da campanha eleitoral, o noticiário costuma ser inundado pelas pesquisas de opinião, sobretudo pelos percentuais de intenção de voto. O eleitor sabe diariamente qual candidato lidera, quem “perde” ou “ganha” um ou dois pontos percentuais, ou ainda como estaria a disputa em um eventual segundo turno.
A ênfase na chamada “corrida de cavalos”, termo usado pela literatura para classificar o tipo de enquadramento mobilizado pela imprensa na cobertura eleitoral, tende a dar pouco espaço às nuances que são tão ou mais importantes para entendermos como e por que os eleitores decidem nesta ou naquela direção.
Para além dos números: os dois eixos da escolha eleitoral
Com os dados de uma pergunta feita pelo instituto Real Time Big Data (01/09) sobre as motivações do voto, é possível identificar duas grandes dimensões do voto presidencial em 2026.
Em um eixo vertical, podemos distribuir as motivações considerando a “natureza do vínculo”, variando entre o vínculo personalista/afetivo e o vínculo de natureza programático/doutrinário. No eixo horizontal, temos uma distribuição sobre a “orientação da decisão” do eleitor, variando entre uma orientação do tipo “reativa/negativa” e uma orientação “afirmativa/propositiva”.
Com esses dois eixos, identificamos quatro motivações centrais:
Delegação e Antipatia (herança política e oposição sistemática): está ancorada no repúdio ao adversário e na transferência de capital político de uma liderança influente.
Carismático/Afetivo (adesão emocional e empatia direta com a liderança): é mobilizada pela conexão afetiva direta com a figura do candidato, baseada em empatia e memória simbólica.
Voto do “mal menor” (escolha por descarte e pragmatismo de contenção): a decisão é utilitária para evitar o pior resultado entre as opções viáveis.
Programático/técnico (convergência de ideias e julgamento técnico): há uma convergência substantiva de natureza ideológica, de valores e de capacidade técnica governativa.

Esse tipo de análise, portanto, inverte a direção da pergunta. Em vez de apenas registrar quem lidera a corrida eleitoral, procura mapear as razões do voto — o campo atitudinal dos eleitores quando eles apontam sua preferência política.
Lula e Flávio Bolsonaro: a assimetria entre afeto e delegação
A conclusão da análise mostra uma profunda assimetria entre os eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Nomes da direita como Augusto Cury e Ronaldo Caiado enfrentam o teto do voto “resignado do mal menor”, enquanto Romeu Zema e Renan Santos mobilizam eleitores mais programáticos e doutrinários, que priorizam capacidade técnica.
No caso de Lula, cerca de 35% dos eleitores afirmam que o preferem “porque gostam do candidato”, 19% porque “concordam com as ideias” e 13% porque “acreditam que ele é o mais preparado”. Somados esses atributos, chega-se a 67% de adesão de natureza puramente afirmativa. O dado mais revelador é que apenas 1% afirma votar em Lula por “apoio de liderança política em que confia”.
Esses resultados indicam que a intenção de voto em Lula está fortemente associada ao seu próprio capital político, acumulado ao longo de décadas, dependendo muito pouco de voto tático.

Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, a lógica se inverte. O principal motivo isolado de voto é o “apoio de uma liderança em que confia” (33%), seguido pela “rejeição aos adversários” (25%) e pelo voto no “menos ruim” (14%). Apenas 7% dizem votar porque “gostam” do candidato e 6% o consideram o “mais preparado”.
Há uma combinação clara de herança delegada, ancorada na figura do ex-presidente Jair Bolsonaro, e sentimento negativo de veto aos adversários. A viabilidade de Flávio depende diretamente da manutenção dessa fidelidade e da ativação constante do antipetismo.
O voto do “mal menor”: o desafio da contenção de danos
Augusto Cury (Avante) e Ronaldo Caiado (PSD) mobilizam eleitores que decidem com base na contenção de danos: buscam neutralizar os extremos, mas sem forte adesão ao nome escolhido.
Cury apresenta a maior taxa de voto resignado do levantamento: 33% dos seus eleitores afirmam que ele é apenas o “menos ruim”, somados a 18% de “rejeição aos adversários”. Mais da metade do seu eleitorado (51%) é puramente reativa, sem vinculação partidária orgânica.

Caiado também carrega essa marca, com 27% de “menos ruim” e 18% em “rejeição”. Contudo, cerca de 26% dos seus eleitores o apontam como “o mais preparado” — número quatro vezes superior ao de Flávio (6%) e o dobro de Cury (13%). O dado reflete a imagem de eficiência administrativa construída em Goiás. Seu desafio estratégico é converter esse voto defensivo em preferência afirmativa nacional.
Ideologia e técnica: os limites do voto programático
No quarto quadrante estão os eleitores motivados por escolhas programáticas e técnicas. Cerca de 31% dos eleitores de Romeu Zema afirmam votar nele porque “concordam com suas ideias”, e 20% porque o consideram “o mais preparado” (outros 24% o veem como o menos ruim). Prevalece a imagem de gestor eficiente associada à pauta liberal.

O campo das ideias também predomina entre os eleitores de Renan Santos, que registra a maior concentração afirmativa da amostra: 29% o consideram “mais preparado”, 27% dizem que “gostam do candidato” e 23% afirmam que “concordam com as ideias”, ou seja, 79% de motivos positivos. Esse perfil reflete o engajamento da militância digital (base do MBL), garantindo fidelidade e ativismo orgânico, mas impondo barreiras claras para a expansão além das redes sociais.
Siga @redem.inct no Instagram e @redem_inct no X para saber mais sobre os estudos realizados por nossos pesquisadores!
Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


