Presidentes que disputam a reeleição costumam melhorar taxas de aprovação com o início da campanha eleitoral, sobretudo com a estreia da propaganda no rádio e na televisão. O controle da máquina pública, a visibilidade das entregas administrativas e a exposição no Horário Gratuito historicamente funcionaram como amortecedores de desgaste – quando o governante iniciava a disputa em baixa popularidade – ou como alavancas para impulsionar a aprovação.
A série nacional de pesquisas do instituto Genial/Quaest, com 32 rodadas realizadas entre fevereiro de 2023 e setembro de 2026, revela, contudo, uma possível ruptura desse padrão. Em vez de avançar com a abertura da campanha eleitoral, a avaliação do terceiro governo Lula recuou. Como explicar esse comportamento?
Os dados sugerem que a inflexão negativa da avaliação não estaria associada exclusivamente a uma piora súbita dos indicadores macroeconômicos ou a falhas de gestão administrativa. Ela decorreria de uma dinâmica bem documentada nos estudos de opinião pública e comportamento eleitoral, segundo a qual o cidadão não avalia a administração pública como um especialista que compara metas e planilhas; ele é profundamente influenciado pela atmosfera predominante no ecossistema informacional. Quando o noticiário é capturado por sucessivos choques institucionais, a agenda pública se altera, a atenção do eleitor é desviada e a propaganda oficial perde eficácia persuasiva.
Da lua de mel ao saldo negativo
A evolução do saldo de avaliação (aprovação menos desaprovação em pontos percentuais) na série da Quaest ajuda a compreender como o Palácio do Planalto chegou a este momento. Trata-se de uma trajetória dividida em três fases.
Na primeira (2023 e 2024), o Governo Federal não enfrentou muitos problemas. Em fevereiro de 2023, o terceiro mandato de Lula começou com o saldo mais favorável de toda a série: 28 pontos percentuais de saldo positivo (56% de aprovação contra 28% de desaprovação), registrando outro pico de 25 p.p. em agosto do mesmo ano. Ao longo de 24 meses, a aprovação se manteve superior à desaprovação, contudo, com leve tendência de queda, fechando 2024 com saldo positivo de apenas 5 p.p.
Esse movimento se consolidou no início de 2025, com a crise do PIX. O ambiente informacional foi inundado por incertezas sobre a possível cobrança de tarifas em transações financeiras nessa modalidade. O tema foi fortemente tracionado pela oposição, que dominou o debate digital com uma profusão de desinformações.
Resultado: com a crise do PIX, a queda se acelerou e, pela primeira vez no atual mandato, o saldo passou a ser negativo (-2 p.p. em janeiro de 2025) e desabou até a mínima histórica em março daquele ano, atingindo -15 p.p.

A partir do segundo semestre de 2025, as taxas apresentaram estabilidade, mas ficaram confinadas em um platô, oscilando entre -1 p.p. e -9 p.p. Em dezembro do ano passado, as revelações sobre a suposta atuação do filho do presidente Lula nas fraudes no INSS voltaram a pautar o debate público, empurrando o saldo de aprovação para -9 p.p. em abril de 2026.
O áudio do senador Flávio Bolsonaro com o empresário Daniel Vorcaro (13 de maio de 2026), somada à tensão comercial com o governo Donald Trump nos Estados Unidos, deslocou temporariamente a crise para o campo da oposição.
O resultou foi um alívio na pressão sobre o governo, permitindo um ganho acumulado de aprovação de 10 p.p. Com isso, o indicador voltou ao terreno positivo (+1 p.p.) na virada entre julho e o início de agosto. Apesar da melhora, esse pequeno saldo indicava percentuais dentro das margens de erro. Esse realinhamento parecia indicar que Lula 3 entraria no período de campanha presidencial com aprovação em rota ascendente.
A quebra da regra na reta eleitoral de 2026
O recorte das seis rodadas da Quaest realizadas entre o início de agosto e meados de setembro deste ano, no entanto, ilustra o momento em que a dinâmica tradicional da campanha falhou em produzir ganhos que os presidentes normalmente experimentam.
Na rodada de 03 de agosto, dias antes do início oficial da campanha, os números apontavam para um possível cenário de recuperação, que dentro das margens de erro, com aprovação chegando 48% contra 47% de desaprovação.
Nos levantamentos seguintes, a curva inverteu a trajetória. Na véspera do início da campanha de rua (13 de agosto), o saldo retornou para o campo negativo (-2 p.p.), também ainda dentro das margens de erro.
Com a estreia do horário eleitoral no rádio e na televisão, o esperado era uma melhora nesses índices. No entanto, o vazamento de conversas entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro sequestrou o foco do noticiário e o debate público, criando dificuldades para a mensagem de campanha. Em 01 de setembro, a aprovação oscilou para 45% e a desaprovação manteve-se em 48% (saldo de -3 p.p., em empate técnico).

Na semana seguinte, a desaprovação alcançou a marca de 50%, enquanto a aprovação encolheu para 43%, estabelecendo um déficit de -7 p.p, com diferenças entre aprovação e desaprovação já fora das margens de erro. Esse patamar permaneceu inalterado na medição de 13 de setembro, às vésperas da sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) convocada para deliberar sobre a abertura de inquérito contra o ministro Alexandre de Moraes.
O último levantamento (21/09), já depois da repercussão da sessão do STF e dos vazamentos de áudios, que também inflacionaram o noticiário, indicou estabilidade na taxa de aprovação, com o saldo ainda negativo em -6pp.
O priming e a saturação institucional
Por que a propaganda eleitoral do governo não surtiu o efeito desejado? Há várias possíveis explicações, mas talvez uma delas esteja relacionada aos mecanismos de agenda-setting (definição da pauta pública) e de priming (ativação dos critérios cognitivos de julgamento).
Enquanto o horário eleitoral do governo exibia dados sobre geração de empregos, reajuste de benefícios e obras de infraestrutura, os telejornais, as redes sociais e os aplicativos de mensagens eram saturados por crises de alto potencial. O eleitor não processa informações em compartimentos estanques.
Ao responder ao pesquisador do instituto de opinião pública, ele ancora seu juízo no sentimento mais disponível na memória: a percepção de instabilidade jurídica, conflito institucional e conflagração entre os Poderes.
Por um processo de responsabilização difusa, o presidente da República e, por consequência, o seu governo tendem a ser penalizados pelo mal-estar do país, mesmo quando a crise tem como epicentro o Poder Judiciário ou o Legislativo. Diante de uma atmosfera conflagrada, as mensagens propositivas do palanque eletrônico soam artificiais e perdem a capacidade de conexão com as urgências percebidas pelo cidadão.
Em resumo, a disputa de 2026 mostram que os recursos tradicionais da reeleição – o tempo de televisão e a máquina administrativa – não operam no vácuo.
Ao ingressar na fase decisiva da campanha com a desaprovação em 50% e um saldo negativo estável em -6 p.p., o presidente Lula esbarra nos limites de sua própria comunicação, refém de um contexto conflagrado por choques sucessivos que contaminam o ambiente eleitoral e a maneira pela qual o eleitor processa as informações e faz o seu julgamento.
Siga @redem.inct no Instagram e @redem_inct no X para saber mais sobre os estudos realizados por nossos pesquisadores!
Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


