A eleição de 2026 encerrou o ciclo político de Luiz Inácio Lula da Silva como candidato à Presidência da República. Entre 2002 e 2026, o Partido dos Trabalhadores disputou sete eleições presidenciais, vencendo seis, das quais quatro com Lula (2002, 2006, 2022 e 2026) e duas com Dilma Rousseff (2010 e 2014), além de ter chegado ao segundo turno em 2018 com Fernando Haddad.
A distribuição geográfica das votações dos candidatos do PT à Presidência mostra que, ao longo desses 24 anos, houve três realinhamentos eleitorais do partido, o último deles iniciado em 2022 e acentuado na disputa deste ano.
Em 2002, na primeira vitória de Lula, a votação de segundo turno apresentou um padrão nacionalmente abrangente entre os estados, mas fortemente puxado pelas grandes cidades, onde o petista chegava a alcançar perto de 70% dos votos válidos, contra 52% nos municípios de menor porte.
A partir de 2006, o primeiro grande realinhamento inverteu essa lógica: o partido interiorizou sua base, crescendo no interior e no Nordeste, mas recuando de forma aguda nos centros urbanos do Sul e Sudeste.
O ciclo recente (2022–2026), por sua vez, sinaliza uma inflexão relevante. O PT voltou a recuperar terreno nas metrópoles, enquanto desacelerou ou recuou nas cidades de menor porte. Esse rearranjo, embora ainda distante da ampla hegemonia observada em 2002, aponta para uma recomposição de fôlego do partido nas principais áreas urbanas do país.
Distribuição nos estados, segundo o peso do eleitorado
Para examinar a trajetória da votação dos candidatos do PT sem as distorções espaciais dos mapas convencionais, nos quais estados com grandes extensões territoriais dominam a imagem, enquanto unidades densamente povoadas como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais ficam sub-representadas, dividimos o eleitorado brasileiro em uma malha de 538 hexágonos. Cada célula representa cerca de 293 mil eleitores aptos.
Com isso, reduzimos as distorções dos mapas convencionais e passamos a considerar corretamente o peso eleitoral de cada unidade da federação. Ao aplicarmos as faixas de votação do PT sobre essa base padronizada, é possível comparar com maior precisão a intensidade do apoio aos candidatos petistas ao longo das últimas sete disputas presidenciais.
Na série histórica, é possível identificar três movimentos nítidos na distribuição das votações:
2002: Hegemonia geográfica ampla, com votações expressivas e uniformes em praticamente todas as regiões do país.
2006 a 2018: Interiorização acentuada do voto, com retração no Sul e Sudeste e concentração marcante no Nordeste. O ápice desse isolamento regional ocorreu em 2018, quando a votação do PT ficou praticamente restrita à faixa nordestina.

2022 e 2026: Recuperação de margens competitivas no Sudeste e no Norte. Embora ainda enfrente resistência no interior paulista e na Região Sul, o PT ampliou sua votação nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte e de São Paulo, pavimentando a reeleição de Lula frente a Flávio Bolsonaro em 2026.
A dinâmica da votação por porte de município
A mudança estrutural observada entre 2022 e 2026 reside no avanço do partido nas cidades mais populosas em paralelo ao esgotamento do crescimento no interior.
Em 2002, os municípios com mais de 1 milhão de eleitores responderam por 23,4% de todos os votos obtidos por Lula no segundo turno, enquanto os pequenos municípios (com até 20 mil eleitores) representavam 18,1%. No auge da interiorização do voto petista, as cidades pequenas chegaram a concentrar mais de 25% do bolo eleitoral do partido, enquanto as metrópoles recuaram para a faixa dos 18%.

A eleição de 2026 consolidou a reversão da tendência de interiorização. O crescimento do PT foi diretamente proporcional ao porte do município: na comparação entre os segundos turnos de 2022 e 2026, o maior ganho relativo de votos válidos ocorreu nas cidades com mais de 1 milhão de eleitores (+3,11 pontos percentuais), seguido pelas faixas de 500 mil a 1 milhão (+2,52 p.p.) e de 200 mil a 500 mil (+2,42 p.p.).
Em contrapartida, nas cidades com menos de 50 mil eleitores, o partido registrou oscilação negativa (-0,53 p.p. na faixa de 20 mil a 50 mil e -1,93 p.p. nas cidades com até 20 mil habitantes).

Esse movimento configurou em 2026 uma distribuição em formato de “U”. O PT preservou a liderança nos dois extremos do eleitorado, vencendo com folga nos municípios de até 50 mil eleitores (cerca de 55%) e reassumindo a dianteira nas metrópoles acima de 1 milhão (53,4%).
Por outro lado, foi aberto um vale persistente de derrota nas cidades médias (entre 100 mil e 500 mil eleitores), onde a votação petista estagnou em 46,7%, evidenciando a força da oposição nos polos industriais e do agronegócio do interior do país.
Pelo comportamento das curvas, a eleição de 2026 espelha a distribuição de 2022, acentuando os ganhos do PT nos pequenos, médios e grandes municípios. No entanto, como é possível observar, apesar desse movimento, a inclinação das curvas está longe do observado nas eleições de 2002 2006 e 2010, sugerindo, nesse sentido, um movimento de recuperação que aproxima das duas pontas, mas mantém o grupo de cidades médias ainda em disputa com a oposição.

A reeleição de 2026 consolida uma base de sustentação híbrida para o PT. Ao contrário do alinhamento generalizado de 2002 ou da dependência quase exclusiva dos rincões do interior do país, sobretudo no Nordeste, vista entre 2006 e 2018, a vitória atual combinou a resiliência do Nordeste com ganhos marginais, mas matematicamente decisivos, nos grandes centros urbanos.
A contenção do avanço conservador nas periferias metropolitanas e a mobilização de setores médios escolarizados garantiram o diferencial que assegurou o quarto mandato de Lula.
A grande incógnita para o pós-2026 reside no teste de continuidade dessa engenharia sem a presença de Lula nas urnas. Em 2030, sem a força gravitacional de seu líder histórico, o PT enfrentará o desafio de reter esses ganhos nas capitais e polos regionais, sob o escrutínio de pautas como segurança pública, custo de vida e serviços urbanos, ao mesmo tempo em que terá de conter o avanço organizado da oposição e das forças de centro-direita nos pequenos e médios municípios do interior.
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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


