Enquanto o noticiário político e as redes sociais projetam uma disputa eleitoral hiperpolarizada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flavio Bolsonaro (PL), a realidade das campanhas aos governos estaduais opera sob outra lógica: a da conveniência pragmática e do controle de palanques, com destaque para o papel desempenhado pelo PSD.
A análise das coligações partidárias em todas as 198 candidaturas a governador revela que o centro gravitacional da política partidária brasileira não está nos extremos ideológicos, mas em um centro pragmático que atrai aliados de ambos os espectros.
Liderança no total de apoios recebidos
Embora divida com o PL a liderança no número de candidatos lançados entre os partidos com representação parlamentar (ambos com 13 registros), o PSD apresenta uma vantagem substantiva em capacidade de aglutinação: as chapas do partido conseguiram atrair 70 apoios partidários formais, mobilizando legendas de 23 siglas distintas. Na prática, quase a totalidade dos partidos que aceitam alianças no país apoia o PSD em ao menos uma Unidade da Federação.
No grafo, o tamanho dos circulos é proporcional ao volume de apoios recebidos por cada partido nas disputas para governador. As seteas partem do partido do candidato a governador em direção às legendas aliadas. A quanto mais grossa a linha, mais vezes essa aliança se repete pelos estados brasileiros.

Por outro lado, o PL atraiu apenas 37 apoios para suas 13 candidaturas próprias — praticamente metade do alcance do PSD. Esse contraste expõe a maior dificuldade da legenda conservadora em ampliar apoios regionais e compor frentes amplas, ficando restrita a parceiros preferenciais (como o Novo) ou a disputas em que opta por chapas mais homogêneas.
A posição do PSD no centro da rede decorre de sua versatilidade geográfica. No Rio de Janeiro, o prefeito Eduardo Paes (PSD) reúne em sua coligação o PT, o PCdoB, o PV e o PSB, ao mesmo tempo em que abriga o MDB, o PDT e partidos de centro-direita. Esse modelo se repete no Amazonas, onde Omar Aziz (PSD) lidera com o apoio do arco governista federal, bem como em Sergipe (Fábio Mitidieri) e Tocantins (Laurez Moreira).
Em contrapartida, nos estados do Nordeste governados pelo PT — Bahia (Jerônimo Rodrigues), Ceará (Elmano de Freitas) e Piauí (Rafael Fonteles) —, o PSD ocupa o papel de aliado de primeira hora das gestões petistas.
Em Minas Gerais, contudo, a chapa de Mateus Simões (PSD) herda a base política do governador Romeu Zema e coliga-se formalmente com Novo, União Brasil, PP e Avante, confirmando o papel do partido como a principal ponte entre a esquerda e a direita no plano subnacional.
A gravitação lulista: o PT em segundo lugar e a disciplina da federação
Na análise da rede de coligações, o PT aparece como o segundo maior polo de atração nacional, com 12 candidaturas a governador e 67 apoios atraídos. O desempenho petista decorre fundamentalmente de dois fatores institucionais: a disciplina da Federação Brasil da Esperança (composta por PT, PCdoB e PV) e a consolidação de amplas coalizões no Nordeste e no Norte.
Enquanto o PT encabeça as principais praças competitivas, PCdoB e PV operam como legendas de suporte: não lançaram candidaturas próprias a governador, mas comparecem formalmente em 27 palanques cada um — cumprindo a exigência legal de unidade federativa nos 12 estados com cabeça de chapa petista e nas 15 unidades federativas onde apoiam aliados.
O MDB apresenta força regional. Com 54 apoios recebidos para 9 cabeças de chapa, a legenda emedebista confirma seu histórico perfil descentralizado. Em estados como Alagoas (Renan Filho) e Pará (Hana Ghassan), o MDB lidera chapas que contam com o endosso oficial do PT. No entanto, o partido apoia formalmente a chapa bolsonarista de Wellington Fagundes (PL) no Mato Grosso, evidenciando que alianças no plano federal não anulam composições divergentes nas regiões ligadas ao agronegócio.
Anatomia dos megapalanques: quando 14 partidos marcham juntos
Outro aspecto marcante na composição das chapas estaduais é a formação de frentes amplas que relativizam clivagens ideológicas. O recorde nacional de 2026 pertence ao Ceará: o atual governador Elmano de Freitas (PT) registrou uma coligação com 14 partidos: além de PT, PCdoB e PV, a chapa aglutina PSB, PDT, Podemos, Mobiliza, Republicanos, PSD, MDB, PRD, Solidariedade, PSOL e Rede. Trata-se de uma composição que reúne, no mesmo palanque de reeleição, partidos da esquerda socialista a legendas tradicionais do Centrão.

Outras megacoligações com 12 partidos ocorrem no Amapá (onde o governador Clécio reuniu União, PP, Republicanos, PDT, Agir, PSDB, Cidadania, PT, PCdoB, PV, PRD e Solidariedade); em Goiás (Daniel Vilela, MDB); no Pará (Hana Ghassan, MDB); no Rio de Janeiro (Eduardo Paes, PSD); e na Paraíba (Lucas Ribeiro, PP).
O exército dos isolados
No polo oposto aos megapalanques, os dados do TSE revelam um bloco de agremiações que atuam de forma isolada. Quatro partidos somam 60 candidaturas a governador sem qualquer coligação: PCO (18 candidatos), Unidade Popular/UP (17), PSTU (16) e Partido Missão (9). Sozinhos, esses quatro partidos respondem por quase um terço (30,3%) de todas as chapas registradas para os governos estaduais no país.
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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


