A vantagem de 2,22 milhões de votos a favor de Flávio Bolsonaro (PL) neste primeiro turno em relação a Lula (PT) inverte a correlação de 2022, quando o petista liderou a primeira rodada com 48,43% contra 43,20% de Jair Bolsonaro.
Essa diferença mostra uma vantagem substantiva para Flávio que transfere para o adversário a responsabilidade de reversão de votos, trabalho mais difícil, mas não impossível.
Em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro, que desfrutava das vantagens da incumbência, ficou em segundo lugar no primeiro turno, e com diferença para Lula de mais de 6 milhões de votos.
No segundo turno, Bolsonaro conseguiu atrair mais 7 milhões, reduzindo a diferença nas urnas para pouco mais de 2 milhões de votos. Muitos eleitores que ajudaram nesse processo vieram justamente da “terceira via” na época.
A despeito do que vai ou não acontecer no segundo turno, gostaria de chamar a atenção para a mecânica regional de transferência e retenção de votos neste primeiro turno. Ela ajuda a compreender o comportamento agregado dos eleitores no comparativo com 2022, e sugere onde as campanhas provavelmente deverão concentrar seus esforços.
O avanço de Flávio: o motor nordestino e a consolidação no Sudeste
Flávio Bolsonaro superou o desempenho eleitoral de Jair Bolsonaro em 2022 em todas as cinco macrorregiões brasileiras, somando 5,03 milhões de votos adicionais no primeiro turno. Esse crescimento, no entanto, teve uma concentração geográfica muito nítida: mais de 60% de todo o ganho nacional veio de apenas duas regiões.

O maior propulsor do salto do PL foi o Nordeste. A região garantiu a Flávio 10,40 milhões de votos (30,85%), contra 8,79 milhões (26,97%) de Jair em 2022 — uma alta de 1,61 milhão de votos que respondeu, sozinha, por 32% do avanço nacional do candidato. Foi a primeira vez que o bolsonarismo rompeu o teto de 30% dos válidos no território nordestino no primeiro turno.
O segundo esteio foi o Sudeste, onde Flávio alcançou a maioria absoluta dos válidos (51,36%), somando 24,90 milhões de votos. O acréscimo de 1,43 milhão de votos sobre o pai representou 28,4% do crescimento total. Combinadas, as duas regiões explicaram 60,4% de todos os novos votos de Flávio no país.

No Sul e no Norte, o avanço foi de 951 mil e 613 mil votos, respectivamente, garantindo a liderança do PL em quatro das cinco regiões.
Vale lembrar, no entanto, que no Sul e no Norte a base bolsonarista já era forte em 2022. O que ocorreu agora foi um aprofundamento dessa capacidade de mobilização de votos.
Mais de 50% da perda de votos de Lula foi concentrada no Sudeste
Do lado governista, Lula registrou encolhimento em todo o país, recuando 3,38 milhões de votos nominais em relação a 2022.
A análise dos dados indica que, embora Flávio tenha avançado no Nordeste, o petista manteve o patamar de desempenho nessa região. A barreira para Lula se levantou, na verdade, na região Sudeste.
Essa região respondeu, isoladamente, por mais de metade de todo o recuo de Lula no país: 53,25%. O presidente perdeu 1,80 milhão de votos no colégio eleitoral mais populoso, caindo de 42,63% para 39,68%.
Somada ao recuo no Sul (-973 mil votos / -5,5 p.p.), a retração no eixo Centro-Sul totalizou 82% das perdas nacionais do petista.

No Nordeste, Lula manteve ampla dianteira (63,77% contra 30,85%), mas com uma pequena inflexão negativa de 259 mil votos nominais (3,0 pontos percentuais), variação insuficiente para neutralizar a expansão adversária nas demais regiões.
Os caminhos para o segundo turno
Com um estoque de 9,32 milhões de votos válidos deixados pela terceira via (Cury, Renan e Caiado) e 39,44 milhões de não-válidos (abstenções, brancos e nulos), as estratégias regionais serão decisivas.
Para Lula, a prioridade é estancar as perdas no Sudeste e atrair o eleitorado que votou em Cury. Ao mesmo tempo, o presidente precisará elevar substancialmente o comparecimento e a margem de votos no Nordeste, convertendo ainda eleitores desiludidos e abstenções para compensar o déficit no Centro-Sul.
No caso de Flávio Bolsonaro o foco deverá ser blindar o eleitorado do Sul e Centro-Oeste, onde já supera 56% e 60% dos válidos, e atrair os eleitores de Ronaldo Caiado no Sudeste e Centro-Oeste para consolidar a vitória. Se mantiver o patamar conquistado no Nordeste, Flávio limitará o aumento de votos pró-Lula nessa região.
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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


