A disputa presidencial registrou um deslocamento líquido (swing) de 8,40 milhões de votos em direção a Flávio Bolsonaro (PL) no 1º turno de 2026 em relação a 2022. Quatro anos atrás, Lula conquistou uma vantagem de 6,17 milhões de votos no 1º Turno sobre Jair Bolsonaro. Este ano, o candidato do PL eliminou essa diferença e abriu dianteira de 2,23 milhões de votos sobre o petista.
A variação pró-Flávio Bolsonaro foi resultado de uma dinâmica em três direções: o recuo das margens nas bases tradicionais lulistas, uma virada expressiva nas cidades pêndulo e a ampliação da sua votação no interior conservador. Nas 1.091 cidades pêndulo, que reúnem um quinto dos votos válidos (25 milhões), houve uma das mais significativas inversões no comparativo com 2022.
Mudança de direção: Lula e Flávio Bolsonaro
Na eleição de 2022, Lula liderou na maioria dessas localidades, vencendo em 592 cidades (54,26%), contra 499 de Jair Bolsonaro (45,74%). Em 2026, o quadro inverteu-se com força. Flávio Bolsonaro venceu em 865 cidades pêndulo (79,38% do segmento), enquanto Lula manteve a ponta em apenas 225 municípios (20,62%).
No grupo das cidades pêndulo, portanto, 367 (33%) que haviam dado vitória para Lula no 1º Turno de 2022, desta vez migraram para o candidato do PL (Veja no final do artigo a definição de cidades pêndulo).

A liderança territorial nas cidades pêndulo se refletiu no volume de votos nominais. Em 2022, Lula obteve 12,14 milhões de votos no estrato (47,26%), ante 10,95 milhões de Bolsonaro (42,59%) e 2,61 milhões da terceira via (10,15%), gerando saldo pró-Lula de 1,20 milhão.
Em 2026, Flávio Bolsonaro passou à frente com 11,97 milhões de votos (47,32%), enquanto Lula recuou para 11,08 milhões (43,82%) e outros candidatos somaram 2,24 milhões (8,86%). Com o petista perdendo mais de um milhão de votos nominais nesse eleitorado, Flávio superou o rival por 886 mil votos, produzindo swing de 2,09 milhões de sufrágios apenas nesse segmento.

A origem dos votos nas cinco tipologias do país
A explicação sobre a origem dos 2,23 milhões de votos de vantagem geral de Flávio nesse 1º turno pode ser mais bem compreendida quando examinamos o conjunto das cinco tipologias de municípios.
Nos 1.489 municípios hegemônicos do PT (seis vitórias em seis eleições entre 2002 e 2022), a vantagem de Lula sobre a oposição encolheu de 9,88 milhões para 8,24 milhões de votos (diferença de 1,64 milhão). Nas 1.409 cidades de dominância petista com oscilação, o saldo a favor de Lula caiu de 3,88 milhões para 2,29 milhões (diferença de 1,60 milhão).
Juntas, essas duas bases tradicionais viram a folga histórica do PT sobre o bolsonarismo encolher em 3,24 milhões de votos — resultado tanto de uma ligeira retração de Lula quanto, principalmente, do avanço de Flávio sobre novos votantes e sobre a terceira via.
No campo conservador, a dianteira da oposição ganhou ainda mais tração. Nos 1.028 municípios de dominância da direita, a margem do PL saltou de 7,04 milhões para 9,55 milhões, injetando 2,51 milhões de votos adicionais no saldo nacional. Nas 546 cidades hegemônicas da direita, a frente passou de 1,75 milhão para 2,32 milhões, com acréscimo de 573 mil votos.
Somadas à virada de 2,09 milhões de votos nas 1.091 cidades pêndulo descrita anteriormente, essas movimentações explicam a construção da liderança de Flávio Bolsonaro no país.

A recomposição eleitoral indica que o resultado de 2026 decorreu de uma alteração estrutural no mapa político. O estreitamento dos índices lulistas no Nordeste, somado à ampliação da margem conservadora no Centro-Sul e à virada nas cidades pêndulo, assegurou a Flávio Bolsonaro a liderança numérica registrada no saldo do 1º Turno.
Do ponto de vista estratégico, a campanha do presidente Lula provavelmente vai concentrar esforços nos seus redutos, onde, em tese, há maior chance de reverter votos. Por outro lado, terá que apresentar uma mensagem específica para os eleitores das cidades pêndulo que, nesta primeira etapa, preferiram Flávio Bolsonaro. A questão que fica em aberto é se os eleitores dessas cidades ainda estão dispostos a rever o voto.
O que são cidades pêndulo
A classificação dos 5.563 municípios foi construída a partir do cruzamento dos resultados de segundo turno das seis eleições presidenciais realizadas entre 2002 e 2022. A metodologia combinou duas variáveis de trajetória histórica: o total de vitórias obtidas pelo PT (de zero a seis) e o número de alternâncias de vencedor entre as candidaturas petistas e os blocos de centro-direita e direita ao longo de duas décadas.
Esse critério delimitou os redutos de hegemonia absoluta de cada campo (1.489 cidades onde o PT venceu todas as disputas e 546 onde a direita triunfou em todos os pleitos); nas faixas intermediárias, as áreas de dominância predominante com oscilações pontuais (1.409 localidades alinhadas ao PT e 1.028 à direita); e, no centro do espectro, os 1.091 municípios pêndulo, caracterizados por elevada volatilidade e de duas a cinco inversões de vencedor na série histórica.
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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


