Em uma campanha eleitoral, o processo de persuasão depende de uma premissa básica: atenção. Sem ela, o candidato fala para poucos ou, na melhor das hipóteses, fala aquilo que o eleitor tem baixa disposição para ouvir.
A pesquisa Genial/Quaest de maio oferece algumas pistas das aflições que dominam as percepções dos brasileiros e dos dilemas que os candidatos terão que enfrentar. Ao perguntar qual é a maior preocupação em relação ao Brasil atual, o levantamento identificou a violência como principal problema do país, com 31% das menções.
Esse dado sugere que as campanhas dos candidatos a presidente deverão focar estrategicamente nesse tema. Apresentar-se como alguém disposto a enfrentar os altos índices de criminalidade pode ampliar as chances de mobilizar a atenção dos eleitores, primeiro passo para convencê-los a votar. Mas aí surge uma segunda premissa na persuasão eleitoral: confiança. O eleitor precisa confiar em quem se apresenta para solucionar os problemas que afligem o seu dia a dia.
Para Lula e Flávio Bolsonaro, esse desafio não é tão simples, e por razões distintas. Para a base Lulista, a violência não é apenas um problema; é a urgência máxima, atingindo expressivos 36% de preocupação. Com o tema da violência disseminado, Lula precisará enfrentar a questão para não só manter a sua base, como conquistar espaço entre os demais eleitores.
O seu desafio, contudo, é estrutural e de narrativa. Embora a segurança pública seja, pela Constituição, competência dos governadores nos estados, o longo período à frente da Presidência da República — o PT governa o país há 18 anos — cria um embaraço para o petista. O discurso de enfrentamento pode soar oportunista e pouco verossímil. É um discurso que não apenas chega tarde, como a sua aplicação e efeito esperado dependem de um complexo arranjo com governadores e prefeitos.

No polo oposto, o cenário desenha uma armadilha. Entre os eleitores identificados como bolsonaristas, é a corrupção (34%) e não a violência (26%) o maior problema do Brasil. Herdeiro político do pai, Flávio Bolsonaro enfrenta um paradoxo. Enquanto o núcleo duro do seu eleitorado exige um discurso rigoroso e punitivista contra desvios éticos, o candidato lida com o desgaste político decorrente de investigações e do noticiário em torno do “Caso Master”.
O desafio estratégico de Flávio será manter a corrupção como vitrine de campanha, mesmo quando o próprio candidato precisa, frequentemente, dividir a sua agenda para se defender nesse mesmo tema. A fissura na campanha de Flávio limita, inclusive, o esforço para apresentar-se como o candidato com capacidade e legitimidade para enfrentar os altos índices de violência.
O papel dos Independentes
Com a eleição se desenhando em quadro bastante competitivo entre Lula e Flávio, a disposição dos eleitores Independentes de irem às urnas e depositar o voto será decisiva diante de candidatos que precisam não apenas apresentar soluções para os problemas do país, mas, sobretudo, administrar as contradições das suas candidaturas.
Nesse grupo dos Independentes, onde a violência (31%) supera largamente os problemas sociais (15%) e a corrupção (14%), o cenário abre uma janela de oportunidade para a oposição. O problema é que capitalizar sobre o medo da criminalidade exige um ativo político fundamental: a credibilidade.
Com a eleição estruturada em um quadro altamente competitivo, o voto decisivo não vai apenas para quem gritar mais alto contra a violência. Ele vai para quem conseguir administrar melhor o próprio desgaste, seja o cansaço do longo tempo de poder petista, seja a desconfiança gerada pelas idas e vindas de Flávio Bolsonaro no Caso Master.
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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


