O impasse do partido Republicanos sobre a definição da candidatura do senador Cleitinho para o governo de Minas Gerais cria dificuldades para a direita em um Estado que, nos últimos 20 anos, tem apresentado uma inclinação eleitoral alinhada mais a esse campo político.
Apontado historicamente como o estado-espelho que antecipa o vencedor das eleições presidenciais no Brasil, Minas Gerais tem registrado outra mudança. Em duas décadas, o Estado tem contribuído menos para as margens de vitória nacional dos presidentes eleitos. Ali, as eleições se tornaram ainda mais acirradas entre esquerda e direita.
Esse acirramento da disputa é fruto de um processo de reconfiguração consistente em Minas Gerais, com uma participação maior da base da direita em áreas que já eram da sua dominância e viradas em outras nas quais a esquerda predominava.
Mais acirramento, menos alavancagem nacional
Entre 2002 e 2006, Minas funcionava como um motor de alavancagem de votos para a esquerda, garantindo vitórias com mais de 30 pontos percentuais de vantagem para Luiz Inácio Lula da Silva.
Essa “gordura eleitoral”, porém, foi progressivamente desidratada ao longo das últimas duas décadas, culminando, em 2022, em um marco inédito: pela primeira vez em 20 anos, a margem do vencedor em Minas Gerais (+0,40 p.p., uma diferença de escassos 49,6 mil votos) ficou abaixo da margem registrada no total do Brasil (+1,80 p.p.).

Apesar disso, o gráfico (acima) mostra que Minas seguiu uma tendência nacional, com quedas progressivas das margens de vitória dos candidatos de esquerda para a Presidência. O que exatamente estaria ocorrendo internamente em Minas?
As cinco bases territoriais do voto
Pelos dados, podemos dizer que Minas está dividida em cinco blocos políticos bem definidos, nos quais a Região Metropolitana de Belo Horizonte (somada ao Vale do Rio Doce e Campo das Vertentes) se transformou em um dos principais campo de batalha eleitoral do país. Esse único bloco concentra 42,61% de todo o eleitorado mineiro (6,98 milhões de eleitores aptos para 2026).
Nas extremidades do estado estão o que podemos chamar de bastiões ideológicos: ao Norte e Nordeste (Norte de Minas, Jequitinhonha e Vale do Mucuri), a esquerda mantém hegemonia, enquanto no sentido oposto, no Sul/Sudoeste de Minas e Oeste, a direita estabeleceu um território sólido de votação.
A Região Eleitoral 1, formada por 163 cidades do Jequitinhonha e Vale do Mucuri, reúne cerca de 13% dos eleitores do Estado. Nessa região, os candidatos a presidente pela esquerda tiveram, em média, 65% dos votos no 2º turno entre 2002 e 2022. Na última disputa, essa hegemonia foi mantida, com uma proporção de 64% dos votos.

A Região Eleitoral 2 apresenta dominância da esquerda. Formada pela mesorregião da Zona da Mata, com 139 cidades, cerca de 97% de cidades votaram com o PT ao longo dos 20 anos. Sua participação eleitoral, porém, é menor, já que essa região representa apenas 10% do eleitorado de Minas.

A Região Eleitoral 3 é o que podemos denominar como uma espécie de campo de batalha pendular, e que será, mais uma vez, decisiva este ano. A região é formada por 243 cidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte, Vale do Rio Doce e Campo das Vertentes.
Mais de 42% do eleitorado mineiro vota nas cidades dessa região, onde a disputa está em aberto. Na média, a esquerda apresenta uma proporção de votos de 55,6%, mas em 2022, a região migrou para a direita com 50,4%. Ou seja, a direita venceu por pouco em um território que, historicamente, prefere candidatos à Presidência pelo PT.

A Região eleitoral 4 também apresenta um comportamento pendular, mas com tendência à direita. A região é formada pela união do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, Noroeste de Minas e Central Mineira, somando 115 cidades. Na média, o campo da esquerda registra uma proporção de votos de 52,6%, mas entre 2018 e 2022 houve uma virada à direita, com a vitória de Jair Bolsonaro (53,9%).

Finalmente a Região Eleitoral 5 pode ser definida também como um bastião favorável à direita. São 190 cidades do Sul/Sudoeste de Minas e Oeste de Minas.
Essa é a região com a maior densidade de voto do campo conservador. Na média, os candidatos desse campo registraram 53,6% dos votos. Esse comportamento se aprofundou em 2022, quando Jair Bolsonaro ampliou a proporção de votos para 57%.

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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


