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Como mapear a opinião de elites se elas não respondem a pesquisas?

Texto original: Suzana Amyuni (Revista Pesquisa FAPESP)

Reportagem sobre os desafios de pesquisar elites mostra como o projeto “Democracia no espelho” conseguiu ouvir 170 parlamentares, um terço da Câmara dos Deputados.

A Revista Pesquisa FAPESP publicou a reportagem “Como mapear a opinião de elites se elas não respondem a pesquisas?”, de Suzana Amyuni. O texto trata das barreiras enfrentadas por quem precisa entrevistar parlamentares, diplomatas, militares e outros grupos que concentram poder. O trabalho do INCT ReDem aparece como um dos casos de enfrentamento desses obstáculos, e a reportagem ouve o coordenador do Instituto, Adriano Codato, professor de ciência política da UFPR.

Codato descreve a inversão de hierarquia que marca esse tipo de pesquisa: “Em pesquisas com grupos socialmente vulneráveis, ser ouvido por um cientista social pode representar uma forma de reconhecimento. Já com as elites, é o entrevistado que dispõe de mais poder e prestígio na interação e que decide se concede seu tempo ao pesquisador.” No caso dos parlamentares, o acesso costuma passar por chefes de gabinete e assessores. Além disso, participar de um estudo acadêmico raramente traz retorno imediato ao deputado.

A reportagem detalha o projeto “Democracia no espelho: como pensam os deputados e como pensa o povo sobre o regime democrático no Brasil”. O estudo compara o que deputados federais e a população consideram essencial a uma democracia. Reuniu respostas de 170 parlamentares, que são 33,1% da Câmara, e de 1.504 pessoas com 16 anos ou mais. O instituto Ipsos-Ipec aplicou os questionários.

Os entrevistadores combinaram agendamentos formais com abordagens nos corredores do Congresso. As abordagens aconteciam entre terça e quinta-feira, quando há mais deputados em Brasília. Cada entrevista foi gravada e georreferenciada, o que permite confirmar que o próprio parlamentar respondeu ao questionário, e não um assessor. Para reproduzir a composição da Câmara, a amostra seguiu cotas por partido e unidade da Federação, com controles de sexo e cor ou raça.

Os resultados mostram que deputados e cidadãos concordam mais quando as perguntas tratam de princípios amplamente aceitos, como igualdade perante a lei e liberdade de imprensa. A distância aumenta quando os itens envolvem limites ao poder e responsabilização do governo.

Em alguns temas, os deputados valorizam mais a democracia que os cidadãos. A proporção de deputados que deram importância máxima à liberdade de oposição foi 10,2 pontos percentuais maior que a dos cidadãos. No caso das eleições livres e justas, a diferença foi de 7,9 pontos.

Nos temas que limitam a ação dos governantes, a relação se inverte. Mais cidadãos que parlamentares deram importância máxima à possibilidade de os tribunais impedirem ações ilegais do governo, com diferença de 12,5 pontos. A maior distância, de 32,2 pontos, apareceu na ideia de que os eleitores devem punir governos que atuam contra seus interesses.

A próxima etapa do projeto prevê entrevistas em profundidade com um grupo menor de deputados. Elas vão registrar também reações e justificativas que os questionários fechados não captam.

A reportagem traz ainda experiências de pesquisa com diplomatas, secretários de segurança pública, militares e integrantes do Hezbollah. Também inclui um quadro com estratégias para aumentar a adesão de entrevistados “difíceis”. Leia a íntegra na Revista Pesquisa FAPESP.

Foto: Amanda Segalli

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Autora

Suzana Amyuni – jornalista

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