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Disputa de 2026 já começou, mas talvez só para as elites políticas

A eleição presidencial de 2026 parece ter começado cedo. Muito cedo. Antes mesmo da definição formal das candidaturas, a disputa já ocupa o noticiário, pauta movimentos partidários, mobiliza redes sociais e produz ondas sucessivas de especulação política. Em Brasília, nos programas de análise e nos ambientes digitais, a sucessão presidencial tornou-se assunto cotidiano ainda em meados de 2025.

Mas há um detalhe importante escapando à superfície do ambiente hiperpolitizado: o eleitor comum talvez ainda não tenha entrado, de fato, na eleição.

Os dados de intenção de voto espontânea da Quaest sugerem precisamente isso. Em vez de um eleitorado mais decidido e cognitivamente conectado à disputa presidencial, como seria esperado em um cenário de campanha antecipada, o que aparece é um país mais indeciso do que no mesmo período pré-eleitoral de 2022.

 

Mais decididos em 2022 do que em 2026

A diferença é significativa. Entre agosto de 2021 e maio de 2022, os indecisos oscilaram entre 45% e 58%. Já na série equivalente de 2025 e 2026, os números variam entre 57% e 72%. Em nenhum momento a atual pré-campanha alcança o nível de definição eleitoral observado quatro anos antes.

O contraste de 2026 no comparativo com 2022 desafia uma hipótese bastante difundida nos estudos de comportamento eleitoral. Em geral, espera-se que ambientes de alta circulação de informação política produzam maior cristalização precoce das preferências. Quanto mais o eleitor é exposto à disputa, aos candidatos e ao conflito político, menor tende a ser o contingente incapaz de indicar espontaneamente um nome presidencial.

Esse comportamento é visível na curva descendente dos indecisos. Quando mais se aproxima do dia da votação, menor a taxa de indecisos. Ou seja, o volume de informações tende a aumentar quanto mais próximo do dia da votação, estimulando o eleitor a tomar uma decisão. Mas o comparativo de 2026 com 2022 revela mais do que isso.

 

Talvez estejamos diante de um fenômeno diferente.

A política brasileira parece hoje permanentemente acelerada, enquanto a decisão eleitoral segue suspensa. Há enorme circulação de informação, mas pouca coordenação em torno de candidaturas percebidas como definitivas.

Isso aparece quando observamos a estrutura da espontânea em cada eleição. No ciclo eleitoral anterior, Lula e Bolsonaro já apareciam com recall eleitoral elevado muitos meses antes da campanha oficial. Somados, os dois frequentemente ultrapassavam 40% da espontânea.

 

Em 2026, Lula mantém presença relativamente estável na espontânea, mas o campo bolsonarista ainda demonstra dificuldade de transferência política. Flávio Bolsonaro sai do zero, quando ainda não tinha sido anunciado como pré-candidato, e alcança 14% em maio de 2026.

 

Esses dados sugerem algo relevante: apesar da centralidade da disputa em dois campos distintos (esquerda e direita), ela não se traduz hoje automaticamente em decisão eleitoral cristalizada. O eleitor talvez saiba de que lado está no conflito político, mas ainda não tenha internalizado quem representará esse lado na urna.

 

Hipótese alternativa

Há também uma hipótese adicional, menos intuitiva, mas importante. O crescimento da indecisão espontânea não necessariamente indica desinformação. Pode indicar fadiga política.

Depois de anos de hiperpolarização, campanhas contínuas e conflito permanente nas redes sociais, parte do eleitorado parece adiar o investimento cognitivo numa escolha presidencial ainda percebida como aberta. Responder “não sei” numa pesquisa espontânea pode significar menos ausência de opinião e mais suspensão estratégica da decisão.

Além disso, a espontânea mede mais do que simples preferência. Ela captura disponibilidade cognitiva, percepção de viabilidade e certeza sobre quem efetivamente estará na disputa.

Em 2022, Lula e Bolsonaro eram candidaturas praticamente inevitáveis já no período pré-eleitoral. Em 2026, o cenário permanece mais nebuloso, especialmente no campo da direita.

Isso ajuda a entender o aparente paradoxo do momento político brasileiro. A campanha se antecipou para partidos, lideranças, comentaristas e militâncias digitais. Mas talvez ainda não tenha começado plenamente para o eleitor médio.

E essa talvez seja uma interpretação razoável da pré-campanha de 2026: a política brasileira vive hoje em estado permanente de mobilização, mas mobilização não é a mesma coisa que decisão eleitoral.

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Fábio Vasconcellos

  • Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.

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