O contexto de degradação do discurso público apresenta um paradoxo. Se, em tese, os cidadãos declaram preferir a civilidade, o respeito mútuo e o compromisso público, por que a oferta de hostilidade pelas elites políticas é crescente?
Para decifrar essa desconexão, um estudo publicado recentemente na PNAS Nexus por Marc S. Jacob e colegas processou 2,2 milhões de declarações do Congresso dos EUA, isolando o comportamento dos chamados “empreendedores do conflito”.
Embora reflita o contexto da política americana, a pesquisa “Entrepreneurs of conflict: A descriptive analysis of when and how political elites use divisive rhetoric” sugere pistas interessantes e uma conclusão contraintuitiva: a crença de que o grito e o discurso inflamado se traduzem em poder institucional, mais votos ou financiamento de campanha é, em grande medida, um mito.
Qual seria, então, a estrutura de incentivo ao comportamento hostil?

A resposta, segundo os autores, está no “capital de celebridade” e na economia da atenção. A visibilidade na mídia, tanto na imprensa quanto nas redes sociais, é o único campo que premia o insulto político de forma imediata e clara.
Um parlamentar que dedica apenas 5% de sua retórica a ataques pessoais obtém a mesma exposição na TV a cabo que um colega que investe 45% do seu tempo em um debate substancial de políticas públicas. Há outro dado igualmente revelador. Apenas 25 membros mais agressivos do Congresso Americano recebem mais atenção nos canais de notícias do que os 75 menos agressivos somados.
Ao substituir o debate sobre políticas públicas pelo assassinato de reputação, esses “empreendedores do conflito” exploram o viés de negatividade do público, ou seja, a tendência psicológica de prestar muito mais atenção a conteúdos hostis. Com isso, eles “lucram” visibilidade ao surfar nas lógicas comerciais da televisão e da internet, ecossistemas que recompensam conteúdos impactantes ou conflito como motores para reter a atenção da audiência.
Hostilidade maior nas redes
Para chegar a essas conclusões, o estudo utilizou modelos de Inteligência Artificial para dissecar o discurso político, focando no estilo e formato da comunicação, independentemente da veracidade factual das alegações. Os discursos foram separados em três dimensões:
Ataque pessoal: Ofensas direcionadas à integridade, moralidade ou ao intelecto do oponente.
Debate crítico: Discordâncias legítimas baseadas em registros de votação e discordâncias ideológicas.
Discussão de políticas públicas: Engajamento puramente substantivo sobre temas que afetam a nação.
No ambiente digital, o ganho de usar ataques pessoais é considerável. No X (antigo Twitter), postagens hostis são compartilhadas, em média, muito mais do que aquelas focadas em debates críticos (606 retuítes contra apenas 244) e chegam a ter o triplo da aprovação direta (2.369 curtidas contra 760).
Sabendo que o conflito gera as melhores métricas, muitos congressistas adaptam o comportamento ao canal. Por isso, os ataques pessoais são mais de três vezes mais comuns nas redes sociais (representando 1,8% das postagens) do que no palco institucional do plenário legislativo (apenas 0,5% dos discursos).
Polarização assimétrica
Os dados expõem também uma assimetria política: embora a incivilidade ocorra em ambos os lados, os ataques são significativamente mais frequentes entre republicanos, um sintoma da atual polarização assimétrica no contexto americano.
A ideia de que o “político celebridade” é um reflexo do ódio do seu eleitorado local não se sustenta. A pesquisa demostra que não existe correlação entre a hostilidade do eleitor e a agressividade do seu representante. Muitos dos políticos mais agressivos vêm de distritos moderados. Ou seja, em vez de representar suas bases locais, esses políticos miram uma audiência nacional de ativistas digitais e consumidores de mídia partidária.
Campanha permanente
Um indício disso está no alvo dos ataques. Os insultos não são espalhados para adversários locais, mas centralizados estrategicamente em figuras de alto perfil.
No período estudado, cerca de um terço de todos os ataques foram direcionados a apenas três pessoas: os candidatos presidenciais (sendo Joe Biden, de longe, o alvo mais frequente).
Para os pesquisadores, a busca pela visibilidade por meio da hostilidade gerou o que o estudo corrobora como o fenômeno da “campanha permanente”. O uso de insultos não ocorre mais apenas perto das eleições; ele forma um piso base o ano inteiro. Os legisladores deixaram de alternar entre “governar” e “fazer campanha”, operando em modo de ataque ininterrupto para não perder a atenção da mídia.
Consequências
O preço que a nação paga por essa estratégia é o abandono da própria função de legislar. Os autores revelam que legisladores que adotam esse estilo perdem capital institucional: recebem menos designações para comitês importantes e perdem a capacidade de patrocinar novas leis.
Esse vácuo legislativo sugere que a fama alcançada pelos ataques não busca ganhos imediatos, mas ativos de longo prazo, como a construção de carreiras midiáticas, acordos para a publicação de livros ou posições de lobby após o término do mandato.
Se a hostilidade política se revela uma ferramenta puramente midiática e completamente desconectada das prioridades do cidadão comum, o custo pago pelo sistema democrático é alto.
A pesquisa de Jacob e colegas sugere que os mecanismos tradicionais de responsabilização política estão falhando. Uma democracia pressupõe que políticos que se comportam contra a civilidade ou param de trabalhar em propostas públicas serão punidos no dia da eleição.
Contudo, quando o objetivo de um parlamentar passa a ser unicamente tornar-se uma “celebridade de mídia” e a falta de decoro não afeta a reeleição, os mecanismos de controle do sistema pararam de funcionar.
O resultado direto dessa corrosão sistemática da atividade política pode ser o aprofundamento do ressentimento entre cidadãos, elevando o que se costuma chamar de “cinismo político” sobre as instituições e, em seu limite, a normalização da tolerância com a violência política.
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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


