A tentativa de examinar os efeitos do Caso Master na pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) segundo as curvas de intenção de voto esconde nuances que, neste momento, são tão ou mais importantes de serem observadas.
A primeira constatação é que o escândalo não provocou uma debandada imediata dos eleitores do senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro, como havíamos sugerido como um possível cenário. Uma leitura mais atenta dos dados do último Datafolha (22/05) revela, contudo, que o capital político de Flávio sofreu um impacto interno, e isso pode ter consequências daqui para frente.
Isso significa o seguinte. Embora o instituto tenha capturado uma queda geral de até quatro pontos percentuais nas intenções de voto do pré-candidato, Flávio ainda mantém um patamar elevado de apoiadores.
Esse mesmo cenário, no entanto, pode e deve ser analisado à luz da dupla crença/ opinião para examinarmos o que chamamos de “efeito de enfraquecimento de atitude eleitoral”.
Esse é um dado importante porque estamos olhando quem já se decidiu por Flávio e não desertou, mas convive agora com uma ambivalência sobre sua decisão. Isso importa porque estamos falando de um eleitor com posições políticas mais fortes, diferentemente dos “indecisos”. Ou seja, o esperado, como de fato ocorreu, é uma maior resistência dos politicamente decididos, mas, mesmo nesse grupo, o assunto gerou impacto.
Primeiro vamos examinar a crença dos eleitores, isto é, o nível cognitivo onde ocorre a absorção e o reconhecimento dos fatos. Os números mostram que a base do senador não está vivendo em um universo paralelo de negação: 54% dos seus eleitores consideram que Flávio tem relação próxima com o Daniel Vorcaro. A informação negativa não foi rejeitada e atualizou o mapa cognitivo (as crenças) desses eleitores.

O segundo nível de análise é a opinião, que se caracteriza pela declaração momentânea dos eleitores por uma preferência no instante em que ele é questionado pelo DataFolha. Os dados mostram o eleitor de Flávio lutando para acomodar o desconforto gerado pelas revelações.
Como mecanismo de defesa da própria escolha, 53% racionalizam o fato opinando que o senador “agiu bem” ao pedir dinheiro. É um contraste com a avaliação geral dos eleitores, em que 64% opinam que ele “agiu mal”. Mas há uma percela de 37% dos eleitores de Flávio que consideram que o senador “agiu mal”.

Fratura interna
A fratura interna revela-se ainda nos 18% de eleitores (entre os 38% que já pensavam em votar no senador antes das revelações) que confessam que a sua confiança no candidato diminuiu. Esta é a nova opinião negativa formulada frente aos fatos recentes.

Por que, então, a esmagadora maioria desse grupo mantem a confiança e menos disposição de mudar de lado?
Aqui entra o papel da atitude política. Diferentemente da opinião eleitoral, a atitude é uma predisposição mais duradoura, um filtro afetivo que ancora e motiva o comportamento final: o ato de votar.
Quando cruzamos a resiliência desse eleitorado com o baque dos 18% que perderam a confiança, vemos o efeito do enfraquecimento de atitude. É preciso considerar ainda os 37% da base de Flávio que consideram que ele “agiu mal”.
O escândalo entrou como um pesado “débito” na contabilidade mental do eleitor. Como o “estoque” prévio de lealdade pelo senador era muito alto, a média geral do saldo continua no azul, segurando a atitude de votar nele.
No geral, o choque não foi suficiente para reverter a ação, mas a introdução de novas considerações negativas gera dissonância e reduz a margem de segurança na base de Flávio Bolsonaro. A possível continuidade do escândalo no noticiário político pode ampliar o enfraquecimento de atitude.
Em resumo. Manter boa parte do eleitor não significa que Flávio saiu ileso. O Caso Master não reverteu a atitude a ponto de gerar uma grande traição nas urnas hoje, mas fragilizou a blindagem psicológica da sua base.
Parte desses eleitores assume agora uma posição de lealdade condicional — ele está mais vulnerável e a um passo mais próximo do limite de deserção caso novas considerações negativas sejam apresentadas sobre o candidato.
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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


