A popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou ao centro do debate político. Com mais uma eleição no horizonte, analistas e partidos monitoram cada oscilação da aprovação como uma espécie de termômetro sobre o que pode acontecer no segundo semestre.
Entre as inúmeras hipóteses levantadas pelos analistas, uma me chamou atenção: a de que a taxa de aprovação dos presidentes varia negativamente no primeiro semestre, tendência que se inverteria ou seria atenuada no segundo semestre, gerando um possível efeito eleitoral.
A ideia é que, como o brasileiro precisa pagar uma série de tributos no início do ano, o humor com a política e o governo, em particular, pioraria nos primeiros seis meses do ano. A hipótese parece fazer sentido, mas o que os dados dizem sobre isso?
Explorei essa ideia a partir de uma série histórica do Instituto MDA, com 107 registros da taxa de aprovação dos presidentes, medidos mensalmente, desde Fernando Henrique Cardoso II. Com esses dados, procurei identificar algum padrão na variação da aprovação dos presidentes entre o primeiro e o segundo semestre.
Inicialmente, o primeiro dado que salta aos olhos é bem simples: a tendência geral de aprovação é descendente ao longo do mandato. Presidente que começa com índices altos, o fenômeno que o jornalismo político chama de “lua de mel”, tende a terminar o ciclo com índices menores.
Na média, o primeiro ano de mandato registra aprovação de 59,4%, os anos intermediários caem para 51,9%, e o quarto ano encerra em 45,8%.

Como é possível observar, os dados variam muito, indicando que nem todos os presidentes seguem o mesmo caminho. O gráfico abaixo mostra trajetórias bem distintas.
Lula no segundo mandato é o único que inverteu a tendência média, partindo de um alto patamar e ampliando ainda mais no fim do mandato. Essa curva se assemelha o caso de Dilma, mas a ex-presidente apresentou uma trajetória aguda de queda no seu segundo mandato que culminou com seu impeachment. Bolsonaro manteve uma curva relativamente constante de queda, mas voltando ganhar força no fim do mandato. Temer, por sua vez, registrou um nível cronicamente baixo no seu curto mandato.

Essa variação entre os governos não é trivial. Uma regressão com controle estatístico por mandato — um modelo que isola cada governo e testa os efeitos dentro do mesmo mandato presidencial — revelou que mais de 71% de toda a variação da série histórica está associada a quem governa, não ao período do ano ou ao calendário eleitoral.
Em outras palavras: a maior parte do sobe-e-desce da popularidade presidencial é explicada por quem está na cadeira, não por quando está. (Voltarei a essa questão na última parte desta análise).
Existe diferença temporal nas taxas de aprovação?
Com relação ao primeiro teste procuramos saber se os presidentes teriam aprovação menor no primeiro semestre do ano em comparação ao segundo. Os dados não confirmam essa relação. A diferença entre os dois períodos é de menos de um décimo de ponto percentual, sem significância estatística.

A segunda hipótese, de que anos eleitorais seriam diferentes dos demais, também não se sustentou estatisticamente

Crise política e efeito sobre a apravação presidencial
Nos testes, apenas dois recortes apresentam diferença estatisticamente significativa: o impeachment de 2016 e a ocorrência da Pandemia. Ou seja, a média da aprovação dos presidentes é consistentemente maior no período anterior a esses eventos quando comparado com o período posterior.
Antes do afastamento de Dilma, a aprovação dos presidentes era, em média, 56,3%. Depois, caiu para 37,8%. No caso da Pandemia, a média foi de 52,9%, depois recuou para 44%.
Parte desse efeito é explicado pelo caso Lula I e II que puxou as médias de aprovação para cima nos períodos anteriores a esses dois eventos. No caso específico do Impeachment, as baixas taxas de Temer constribuíram para puxar a aprovação média para baixo, ampliando as diferenças Pré e Pós.
Quando o teste para o evento Pandemia foi restrito ao mandato de Bolsonaro — o único presidente a governar durante a crise de saúde — as diferenças não foram estatisticamente. Ou seja, não teríamos como afirmar que essa linha de corte tem relação com as variações das médias.
Isso, contudo, pode ser resultado de falha da amostra, que contou com apenas três casos no período Pré. Mesmo assim, o valor do teste ficou levemente acima do critério de 0,05 (p=0,063), sugerindo que a variação de 48,8% para 39,5% na aprovação de Bolsonaro tem, provavelmente, relação com a Pandemia.


Nos dois casos, como sabemos, o país enfrentou uma crise econômica muito forte, portanto, não é possível dizer, com esses testes, se os efeitos identificados, na verdade, escondem uma associação com indicadores econômicos. De todo modo, chama atenção que, mesmo mais de cinco o início da Pandemia, e com indicadores econômicos melhores, a taxa média de aprovação Pós continue abaixo do período Pré Pandemia, mesmo caso do Impeachment.
E Lula?
Como dito anteriormente, há uma relação forte dos dados com quem está no governo, razão pela qual os percentuais de aprovação variam muito entre os presidentes. Por conta disso, realizei os testes apenas para o caso de Lula, já que ele foge da curva, com percentuais de aprovação sempre altos, sobretudo no segundo mandato.
Os testes procuraram identificar se a aprovação de Lula tem relação com aspectos do calendário — e, portanto, se é possível esperar variações no segundo semestre.
Os resultados, mais uma vez, foram não significativos. Não há indicação clara de que as taxas de aprovação mudam consistentemente para Lula, considerando a comparação entre o 1º e o 2º semestre em anos não eleitorais e em anos eleitorais.
Em resumo. O que esses resultados mostram, em conjunto, é que a popularidade presidencial no Brasil não obedece a um calendário previsível. Semestres ou anos eleitorais não explicam isoladamente as oscilações de aprovação. O que explica é quem governa e o que acontece durante o mandato.
Choques políticos e institucionais, como o Impeachment e a Pandemia, contudo, parecem exercer um corte consistente nas taxas médias. Como lembramos, possivelmente esses efeitos estejam associados às consequências também econômicas dessas crises nas taxas de aprovação.
No caso específico de Lula, que no terceiro governo enfrenta o desgaste natural do ciclo de poder com uma eleição à vista, os testes sugerem uma implicação direta. O relógio pressiona, mas o que vai determinar se sua aprovação melhora não é o mês do calendário. É o que o governo faz — ou deixa de fazer — com o tempo que ainda tem.
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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


