O gênero é hoje umas das principais linhas divisórias do comportamento eleitoral na disputa presidencial no Brasil. Entre 2010 e 2026, o distanciamento das intenções de voto de homens e mulheres passou de 12 pontos percentuais para o recorde de 24 pontos.
O fenômeno da distância entre os gêneros está sobreposto à divergência ideológica. Esta ano, enquanto o eleitorado feminino dá a Lula uma vantagem de 15 pontos percentuais, os homens apostam na direção oposta, com predomínio de 9 pontos para Flávio Bolsonaro.

Os dados, elaborados a partir da série histórica de pesquisas do Datafolha realizadas na véspera dos segundos turnos, demonstram que essa clivagem não é uma flutuação aleatória, mas o aprofundamento de uma reconfiguração demográfica do voto no Brasil.
Até 2014, o comportamento eleitoral entre os gêneros caminhava para a convergência. Naquele pleito, o hiato de intenção de voto caiu para apenas 3 pontos percentuais, perdendo significância estatística. Além disso, tanto em 2010 quanto em 2014, Dilma Rousseff venceu os candidatos da direta entre os homens e entre as mulheres
A inflexão estrutural que rompeu essa convergência ocorreu na eleição de 2018. Naquele momento, o eleitorado masculino convergiu de forma massiva para a candidatura de direita (Bolsonaro). Em contrapartida, as mulheres não acompanharam esse movimento, convertendo-se, a partir dali, na principal base de sustentação do voto progressista no país.
Como resultado, o hiato de gênero saltou de 3 para 19 pontos percentuais. A tendência de distanciamento, com os homens pendendo à direita e as mulheres à esquerda, manteve-se em 2022 e atinge sua expressão máxima no ciclo de 2026.

Hipóteses explicativas
A literatura de ciência política e a análise dos dados sugerem três hipóteses fundamentais para explicar a formação e o alargamento dessa diferença.
A primeira refere-se na autonomia financeira e na escolaridade. O avanço educacional e a consolidação da inserção feminina no mercado de trabalho reorientaram as prioridades desse grupo, ampliando a demanda por políticas de regulamentação do trabalho e equidade salarial.
O segundo fator diz respeito à adesão ao Estado de bem-estar social. Estatisticamente, as mulheres são as maiores usuárias e beneficiárias diretas de serviços públicos, como saúde, educação e programas de transferência de renda, atuando majoritariamente como as principais provedoras do cuidado com a família.
Por essa razão, discursos de austeridade fiscal e de redução do papel protetor do Estado tendem a gerar maior grau de rejeição entre o eleitorado feminino.
O terceiro elemento, catalisado a partir de 2018, é a rejeição orgânica à retórica e à pauta da extrema-direita. A pesquisa indica que as mulheres impõem uma barreira expressiva a candidaturas que promovem discursos agressivos, oposição a direitos de minorias e à flexibilização do porte de armas. Frente a propostas de militarização da segurança pública, o eleitorado feminino demonstra preferência por políticas de proteção social comunitária.
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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


