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Na contramão das Américas: aprovação de Lula sobe enquanto a de outros líderes despenca

Desde o fim da pandemia, lideranças mundiais têm enfrentado um cenário crítico de baixos índices de popularidade. No geral, analistas políticos consideram que o mau humor da população está associado à inflação alta, crises migratórias, desigualdades e, sobretudo, ao desgaste natural de presidentes e primeiros-ministros que estão há muito tempo nos seus cargos. 

Embora essa seja uma tendência global, quando analisamos as taxas de aprovação de 22 líderes entre 2025 e 2026, o que temos é um quadro com mais nuances. Com base nos dados da Morning Consult, calculamos o saldo da aprovação das lideranças no período. 

Os resultados indicam que o presidente Lula é o único que apresenta crescimento consistente de sua popularidade, apesar de estar no fim do seu terceiro mandato. Nas Américas, seus colegas da Argentina (Javier Milei), México (Cláudia Sheinbaum) e Estados Unidos (Donald Trump) apresentam queda acentuada de aprovação. 

No levantamento finalizado em abril deste ano, a Morning Consult identificou mais uma vez Narendra Modi (Índia) com a maior taxa de aprovação (70%), apesar de estar no cargo desde 2014. 

 

 

O primeiro-ministro da Índia é agora seguido pelo presidente Lee Jae-myung (Coreia do Sul) e pelos primeiros-ministros Andrej Babiš (Rep. Tcheca), Mark Carney (Canadá) e Sanae Takaichi (Japão). Com exceção de Modi, todos assumiram os cargos ao longo de 2025. 

Expansão acelerada (período de “lua de mel”)  

O comparativo das taxas de aprovação de 2025 e 2026 indica a existência de quatro grupos. O primeiro deles pode ser denominado de “expansão acelerada” e é formado principalmente por lideranças que assumiram recentemente o poder, como Lee Jaemyung (Coreia do Sul), Mark Carney (Canadá), Sanae Takaichi (Japão) e Andrej Babiš (República Tcheca). 

Na Coreia do Sul, a aprovação subiu de 22% para 63% com a ascensão de Lee Jae-myung. No Canadá, a substituição de Justin Trudeau por Mark Carney levou a aprovação de 31% para 54%. 

Movimento semelhante ocorreu no Japão, onde a entrada de Sanae Takaichi puxou a aprovação de 25% para 53%, e na República Tcheca, onde Andrej Babiš substituiu Petr Fiala, com salto de 16% para 55%. 

Esses casos indicam um efeito consistente de “lua de mel política”, em que novos líderes iniciam seus mandatos com níveis elevados de aprovação. 

 

Estabilidade e expansão moderada (nível médio, trajetórias divergentes)  

No segundo grupo, temos um comportamento mais heterogêneo. Parte das lideranças apresenta recuperação gradual, como Lula, cuja aprovação subiu de 33% para 40% (+7 pontos), além de Sánchez (Espanha, +4 pontos) e Tusk (Polônia, +3 pontos). Esses movimentos sugerem estabilização política ou melhora moderada na percepção pública. 

A Alemanha, contudo, representa um caso particularmente distinto. Mesmo com troca de liderança, a aprovação recuou na margem de erro (21% para 19%), sugerindo que a substituição não foi suficiente para reverter a percepção negativa. 

 

O caso brasileiro, que podemos classificar como expansão moderada, chama atenção porque o presidente Lula apresentou crescimento da aprovação, fora da margem de erro, sem que tivesse troca de liderança. 

Parte dessa melhora pode estar associada ao maior controle da inflação, às propostas aprovadas no Congresso como a redução do Imposto de Renda ou mesmo a mudanças na comunicação do governo. De todo modo, a variação positiva sugere uma dinâmica de recomposição política interna do presidente Lula às vésperas de mais uma eleição. 

Queda moderada  

Neste grupo estão países com deterioração moderada da popularidade das suas lideranças, como Starmer (Reino Unido) com queda de 5 pontos, Narendra Modi com –7 pontos e Store (Noruega) com perda de 9 pontos percentuais de aprovação entre 2025 e 2026. 

Queda acentuada  

Este é um dos grupos que mais se destacam. As lideranças apresentam uma queda forte de aprovação em um ano, com destaque para Claudia Sheinbaum (México, −22 pontos), Javier Milei (Argentina, −15 pontos), Anthony Albanese (Austrália, −15 pontos) e Donald Trump, com perda de até 11 pontos. 

Em síntese, a análise das taxas de aprovação entre 2025 e 2026 revela três dinâmicas principais no cenário global. Primeiro, a renovação política está associada a ganhos rápidos de aprovação no curto prazo. A substituição dos quadros políticos cria um clima de esperança entre os eleitores, ajudando a reverter temporariamente as taxas de reprovação. 

A segunda dinâmica é a prevalência de erosão de popularidade em diversas democracias, particularmente nas Américas e na Europa, cenário que cria dificuldades de continuidade dessas lideranças ou dos seus grupos políticos. Por último, observa-se ainda um cenário composto por lideranças altamente aprovadas, como o primeiro-ministro da Índia, em contraposição a outras, como o presidente da França, hoje com baixa legitimidade popular. 

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Fábio Vasconcellos

  • Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.

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