A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro dominou a agenda do país após o vídeo em que apresentou duras críticas ao pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL).
Há um temor na direção do PL dos efeitos da atitude de Michelle, que presidia até o início desta semana o PL Mulher. A ex-primeira-dama é apontada como uma das principais responsáveis por ampliar o número de mulheres na legenda, segmento em que a família Bolsonaro sempre enfrentou resistência.
Com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mapeamos as filiações ao PL desde 2018 até abril deste ano. O ex-presidente Jair Bolsonaro entrou para o partido no fim de 2021. No início de 2023, Michelle assumiu o PL Mulher e passou a viajar pelo Brasil para ampliar a participação das mulheres na legenda.
Os resultados da análise mostram um paradoxo. De fato, a entrada de Michelle para o PL Mulher coincide com o crescimento do número absoluto de novos filiados (homens e mulheres), mas os homens foram os que mais ingressaram no partido. Essa dinâmica levou a uma redução da proporção de mulheres dentro do PL.
O salto absoluto de filiadas
Para isolar o efeito da entrada da ex-primeira-dama, a análise comparou o período de 2022 (ano anterior à entrada de Michelle no PL Mulher) até abril de 2026. Os dados confirmam que a liderança de Michelle está associado a um aumento expressivo de novas filiações.
O PL saltou de 345 mil mulheres filiadas ativas em 2022 para 411 mil. Esse ganho líquido de mais de 65 mulheres representa uma taxa de expansão feminina de cerca de 19%. A taxa foi 6,2 vezes superior à média nacional de todos os partidos no mesmo período (3%).

O desempenho também superou o PT, seu principal oponente político da família Bolsonaro. Comparativamente, o crescimento feminino do PL foi mais que o triplo do registrado pelo PT no período (6%).
O declínio proporcional das mulheres
Com tantas novas filiações de mulheres, era esperado que elas ampliassem a participação no PL. Mas não foi isso que aconteceu. A participação feminina na composição interna do PL, na verdade, caiu no período. Era de 45% em 2022 e recuou para 43% em 2026, uma redução de dois pontos percentuais.
Essa queda ocorreu porque a filiação de homens ao PL no mesmo período foi substancialmente mais forte. Entre 2022 e 2026, o PL registrou um saldo de 122 mil novos filiados masculinos, o que representa um crescimento de 29% entre os homens.

A análise dos dados demonstra, portanto, que a atuação de Michelle Bolsonaro ajudou a expandir a base feminina do PL em volume e velocidade, superando os patamares nacionais de recrutamento.
Contudo, a marca do partido, que é fortemente associada à imagem de Jair Bolsonaro, exerceu um poder de atração masculina ainda mais robusto. Esse fluxo massivo de novos filiados homens neutralizou o ganho de gênero, mantendo a composição interna do partido em uma trajetória de masculinização.
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Fábio Vasconcellos
- Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.


