Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia | Representação e Legitimidade Democrática | ReDem

Funil da representação: homens têm 2,5 vezes mais chances de serem eleitos deputados federais

Este ano, a proporção de mulheres candidatas a deputada federal atingiu 36,6%, superando mais uma vez o piso legal de 30%. Mas será que o aumento da presença feminina nas nominatas se traduz diretamente em maiores chances de eleição?

A análise da série histórica das eleições para a Câmara dos Deputados mostra que, a despeito do cumprimento formal da cota de gênero, persiste um funil estrutural na conversão de candidaturas em mandatos.

A chance de um homem ser eleito supera em duas vezes e meia a de uma mulher. Essa assimetria ilustra a sub-representação feminina no Poder Legislativo: embora representem 51,5% da população brasileira e quase 53% do eleitorado, as mulheres ocupam apenas 17,7% das cadeiras na Câmara dos Deputados.

 

 Entre 2010 e 2022, enquanto o total de mulheres registradas cresceu continuamente, a taxa de sucesso eleitoral feminina (percentual de eleitas sobre o total de aptas) manteve-se praticamente estagnada na casa dos 3% (2,96% em 2014, 3,18% em 2018 e 2,72% em 2022).

Por que a taxa de sucesso dos homens caiu de 11,8% para 6,9% sem que a das mulheres subisse? A resposta reside no aumento expressivo do número absoluto de concorrentes masculinos ao longo do período (de 3,9 mil para 6,1 mil), decorrente das mudanças nas regras eleitorais e da formação de chapas completas pelos partidos. Com mais concorrentes disputando o mesmo número de vagas, a taxa de sucesso eleitoral diminuiu de forma generalizada.

Contudo, a disparidade relativa de gênero permaneceu praticamente inalterada. Em todo o período analisado, os candidatos homens sustentaram uma vantagem competitiva de cerca de 2,5 vezes sobre as mulheres (2,45 vezes em 2010 e 2,53 vezes em 2022).

 Outra forma de mensurar essa barreira é por meio da taxa de conversão proporcional. Em 2022, as mulheres representaram 35,3% das candidaturas aptas, mas conquistaram somente 17,7% das cadeiras – uma perda estrutural de 50% de sua força eleitoral entre o registro e o resultado das urnas.

Em contrapartida, os homens, que representavam 64,7% dos candidatos, obtiveram 82,3% das vagas. Na prática, para cada 100 cadeiras que caberiam aos homens em um cenário de correspondência estrita com sua presença nas listas, eles conquistaram 127, enquanto as mulheres alcançaram apenas 50.

Essa dinâmica evidencia que grande parte das candidaturas femininas carece de competitividade efetiva. Duas hipóteses centrais explicam o fenômeno: a persistência de candidaturas registradas prioritariamente para atender ao piso legal e a distribuição intrapartidária desigual de recursos financeiros e tempo de exposição durante a campanha.

O impacto dessa distorção é expressivo. Caso houvesse paridade perfeita de conversão (índice 1,00) em 2022 – ou seja, se a fatia de 35,3% de candidatas resultasse em 35,3% das cadeiras —, a Câmara contaria com 181 deputadas federais, em vez das 91 eleitas. Consequentemente, a bancada masculina seria de 332 deputados, e não de 422.

A desigualdade de chances tampouco se distribui de maneira homogênea pelo território nacional. O Nordeste registrou a barreira regional mais severa em 2022. Os homens tiveram chacess 4,2 vezes maiores de vitória, e quatro estados da federação não elegeram nenhuma mulher (Alagoas e Paraíba, somando-se a Tocantins e Amazonas no Norte). Já o Centro-Oeste apresentou a menor disparidade do país, embora os homens ainda tenham tido chance 1,7 vez superior à das mulheres (razão de 1,69x).

No plano partidário, observam-se três padrões nítidos. O primeiro reúne legendas de hiperdisparidade masculina (com vantagens que variam de 3,5 vezes no Republicanos a 7,5 vezes no PSDB, além de siglas como PV, PSC, PROS e PTB, que elegeram bancadas 100% masculinas).

 O segundo grupo engloba partidos de disparidade moderada, com razões entre 1,76 e 2,95 vezes (PT, MDB, PL e União Brasil). Por fim, apenas três legendas apresentaram paridade ou vantagem feminina: Novo (0,98x), PCdoB (0,97x) e PSOL (0,53x, legenda em que as mulheres tiveram praticamente o dobro da taxa de sucesso dos homens).

Siga @redem.inct no Instagram e @redem_inct no X para saber mais sobre os estudos realizados por nossos pesquisadores!

Fábio Vasconcellos

  • Doutor em Ciência Política pelo IESP (2013) e mestre em Comunicação Social pela UERJ (2008). Professor associado da Faculdade de Comunicação UERJ. Temas de interesse: Comportamento Eleitoral; Comunicação Política; Eleições; Opinião Pública; Analise de Dados.

Compartilhar esse conteúdo

Veja Também