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O que une e o que separa eleitores e deputados?

Escrito por: Julian Borba e Ednaldo Ribeiro

Eleitores e deputados concordam sobre o que é democracia? Nas regras do jogo, sim: eleições livres e liberdades fundamentais têm amplo apoio dos dois lados. Mas quando o assunto é proteção social e redução de desigualdades, a distância é grande. Dados inéditos do INCT-ReDem mostram que a nova fronteira ideológica do país não separa democratas de autoritários, e sim diferentes visões sobre o que a democracia deve ser e a quem ela deve servir.

O Desafio Investigado: O debate público costuma perguntar se os brasileiros apoiam ou não a democracia. O artigo propõe outra pergunta: que democracia população e parlamentares defendem? A pesquisa investiga onde eleitores e deputados federais convergem, onde divergem e o que esse desalinhamento significa para a representação política.

A Proposta Central: Os autores comparam as percepções de democracia de dois grupos, a partir de pesquisa do INCT-ReDem:

  1. A população: 1.504 brasileiros entrevistados em fevereiro de 2025.
  2. Os representantes: 170 deputados federais entrevistados em agosto de 2025.

As respostas foram analisadas por dimensões da democracia (procedimental, liberal, social e participativa) e por posicionamento ideológico. Cidadãos e parlamentares também foram classificados em cinco perfis de democratas, segundo a metodologia de Kriesi, Saris e Moncagatta (2016), adaptada por Ribeiro e Rocha (2025).

Evidências e Argumentos: Ao colocar eleitores e deputados lado a lado, os dados revelam:

  • Consenso nos procedimentos: eleições livres e justas são essenciais para 78,5% da população e 87,1% dos deputados. A igualdade perante a lei tem 78,0% e 81,8% de apoio, respectivamente.
  • Ruptura na dimensão social: 73,1% da população considera a proteção social essencial para a democracia, contra 56,5% dos deputados. Na equidade econômica, são 64,3% contra 47,6%. Em escala padronizada (0 a 1), a população tem média de 0,793 na dimensão social, e os deputados, de 0,520. É uma distância de 27,3 pontos, o maior desalinhamento observado.
  • O “liberalismo seletivo” da extrema direita: deputados de extrema direita apoiam eleições livres e liberdade de imprensa, mas têm o maior descompasso social em relação à própria base. Os eleitores registram 0,684, e seus representantes, 0,467. Na direita tradicional, a diferença é menor, mas ainda significativa. Na esquerda, ocorre o inverso: os deputados são mais exigentes que sua base na dimensão social.
  • A especificidade brasileira: 42,4% dos brasileiros são democratas multidimensionais, contra apenas 7,3% na Europa. Por outro lado, 32,2% não valorizam os fundamentos mínimos da democracia, acima dos 21,9% europeus. No Congresso, os “liberais básicos”, que valorizam apenas procedimentos, são 11,8%, contra 2,9% na população: um perfil quatro vezes mais comum entre deputados.

Implicações e Contribuições: A conclusão é que a democracia brasileira está menos ameaçada em seus fundamentos procedimentais do que fragmentada em suas concepções substantivas. Quando parlamentares, especialmente de direita, divergem de seus próprios eleitores sobre justiça social, a representação enfrenta uma crise de legitimidade. O estudo também alerta para a fragilidade normativa de um terço da população, marca das crises da última década. Como resumem os autores, a questão crítica não é mais “você apoia a democracia?”, mas “qual democracia você defende?”.

Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

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Autores

Julian Borba – Professor de Sociologia e Ciência Política na UFSC e pesquisador associado ao INCT ReDem.
Ednaldo Ribeiro – Professor da Pós-Graduação em Ciência Política da UFPR, professor da UEM e vice-coordenador do INCT ReDem.