Petistas de direita? Bolsonaristas de esquerda? Uma reportagem da Folha de S.Paulo, com dados do Datafolha, mostrou que 34% dos petistas se dizem de direita e 14% dos bolsonaristas se dizem de esquerda. À primeira vista, parece confusão do eleitor. Uma pesquisa do INCT-ReDem propõe outra leitura: lulistas e bolsonaristas se organizam de formas diferentes, e cada grupo é coerente com a própria lógica.
O Desafio Investigado: Identidade política e ideologia nem sempre caminham juntas. A reportagem levantou hipóteses como falta de clareza conceitual, polarização e influência das lideranças. O artigo vai além e pergunta se esse aparente paradoxo é mesmo confusão ou se reflete a forma como as identidades políticas se estruturam no Brasil.
A Proposta Central: O autor usa a pesquisa nacional Vozes da Democracia, realizada pelo Ipec em fevereiro de 2025 com 1.504 entrevistas domiciliares, no âmbito do INCT-ReDem. A análise cruza simultaneamente cinco dimensões:
- Simpatia pelos líderes.
- Vínculo partidário.
- Voto em 2022.
- Autoposicionamento ideológico.
- Avaliações simbólicas sobre Lula e Jair Bolsonaro.
Evidências e Argumentos: Os dados mostram que lulistas e bolsonaristas diferem tanto em quem são quanto naquilo que forma seu núcleo duro:
- Lulismo, uma coalizão ampla: o grupo é social e ideologicamente transversal. Ele se organiza em torno da simpatia por Lula, do voto nele em 2022 e da avaliação positiva do PT. A ideologia é secundária: para muitos, Lula é menos um representante doutrinário e mais um mediador associado a experiências de inclusão social e estabilidade econômica. Por isso, “petistas de direita” não são uma anomalia, e sim parte de uma coalizão característica do lulismo desde 2002.
- Bolsonarismo, uma identidade ideológica: o grupo é mais homogêneo e coerente. Ele se organiza em torno do autoposicionamento à direita, da simpatia por Bolsonaro e do voto consistente nele. A ideologia é o eixo central, e o PL funciona mais como veículo do que como identidade duradoura. Bolsonaristas de esquerda existem, mas orbitam as margens do grupo.
- Assimetria entre os campos: os percentuais da Folha não têm o mesmo significado nos dois lados. Petistas à direita confirmam a capacidade de agregação do lulismo. Bolsonaristas à esquerda são exceções num campo ideologicamente mais fechado.
- Em perspectiva: o bolsonarismo funciona como um sistema de crenças mais integrado e pode sobreviver para além de Bolsonaro. Já o lulismo enfrenta o desafio, ainda em aberto, de se reproduzir sem Lula.
Implicações e Contribuições: A conclusão é que o eleitor não está confuso: o sistema político é que é complexo. Os eleitores sabem distinguir liderança, ideologia, partido e experiência concreta, e combinam esses elementos de forma estratégica. Lulismo e bolsonarismo são respostas diferentes a uma mesma crise de representação: um amplia coalizões, o outro delimita identidades. O estudo reforça que a aparente incoerência é, na verdade, coerência com estruturas políticas distintas.
*Foto: Ricardo Stuckert / Charles Vieira – Fonte: O Globo
Siga @redem.inct no Instagram e @redem_inct no X para saber mais sobre os estudos realizados por nossos pesquisadores!
Autor


