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Brasileiros querem bem mais da democracia do que europeus

Escrito por: Adriano Codato e Ednaldo Ribeiro

O que os brasileiros esperam da democracia? Quase tudo. Uma pesquisa nacional do INCT-ReDem mostra que a maioria quer um regime que una eleições limpas, direitos fundamentais e redução das desigualdades, e não apenas o voto a cada quatro anos. Na Europa, boa parte se contenta com o básico. Mas a comparação também revela um alerta: aqui, quase um terço da população não valoriza nem o mínimo institucional.

O Desafio Investigado: Apoiar a democracia não significa esperar o mesmo dela. O artigo investiga o que brasileiros e europeus consideram essencial para que um regime seja democrático. Pergunta também o que essas expectativas revelam sobre a estabilidade política de cada contexto.

A Proposta Central: Os autores comparam duas grandes pesquisas de opinião:

  1. Brasil: pesquisa nacional representativa do INCT-ReDem, com 1.504 entrevistas presenciais feitas em fevereiro com brasileiros acima de 16 anos.
  2. Europa: dados do European Social Survey (ESS), que em 2021-2022 ouviu dezenas de milhares de pessoas em 31 países.

Evidências e Argumentos: Ao comparar os dois contextos, os dados revelam contrastes marcantes:

  • Democracia completa: 42,5% dos brasileiros defendem uma democracia “multidimensional”, que reúne eleições limpas, direitos fundamentais e redução das desigualdades. Na Europa, são apenas 7%, uma proporção seis vezes menor.
  • Além do funcionamento institucional: somando os multidimensionais aos que priorizam a proteção social (21%) ou a participação direta (1,5%), chega-se a 65% dos brasileiros. Na Europa, os perfis equivalentes somam 27%.
  • Razões históricas: na maior parte da Europa, direitos políticos e proteção social estão consolidados desde meados do século 20. No Brasil, ainda são, para muitos, uma promessa não cumprida. Quem sente a desigualdade na pele espera que a democracia alivie seus efeitos.
  • O outro lado: 32% dos brasileiros são “não democratas”: não consideram essenciais eleições limpas nem igualdade jurídica. Na Europa, esse grupo soma 22%.

Implicações e Contribuições: A conclusão é que a convivência entre quem cobra muito da democracia e quem dispensa até o mínimo ajuda a explicar a crônica instabilidade política brasileira. Quem espera demais pode desistir cedo demais, e quem nunca valorizou o mínimo pode aplaudir soluções autoritárias disfarçadas de eficiência. Ainda assim, o desejo majoritário por uma democracia ampla e inclusiva é uma força positiva, desde que encontre instituições capazes de sustentá-lo. Como resumem os autores, a democracia não pode prometer tudo, mas, no Brasil, não sobreviverá se entregar muito pouco.

*Foto: Foto: Eraldo Peres / AP

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Autores

Adriano Codato – Professor de Ciência Política na UFPR e coordenador do INCT ReDem.

Ednaldo Ribeiro – Professor da Pós-Graduação em Ciência Política da UFPR, professor da UEM e vice-coordenador do INCT ReDem.